O Corsário dos Sete Mares

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“…um excerto do capítulo XVI “Mar da China” (o 4º de um total de 7) que relata o encontro de Fernão Mendes Pinto com Vasco Calvo, durante o exílio na Muralha da China
XVI – Onde houver mel, haverá formigas (malaio) 
[A carta] do rei de Malaca Mahamed Syah, trazida por Tuão Hasan Mudelyar, seu embaixador, que foi dada ao Filho do Céu, dizia: 

“Os Folangji ladrões com coração grande vieram a Malaca com muita gente e tomaram a terra e a destruíram, e mataram muita gente e a roubaram, e outra cativaram, de que o rei que foi de Malaca tem o coração triste e anojado. Com grande medo tomou o selo do rei da China e refugiou-se no Bintão (1), donde está; e os seus irmãos e parentes fugiram para outras terras. O embaixador do rei de Portugal que está na terra da China é falso, não vem de verdade, que vem para enganar a terra da China. Para o rei da China fazer mercê ao rei de Malaca, este, com coração enojado, manda presente, pede ajuda e gente para lhe ser tornada sua terra”. 
Do Lichao Shilu (Crónicas Verídicas da Dinastia Li – Coreia) 

“No dia Wushu da décima segunda lua (1522), o intérprete Li Shuo apresentou um memorial ao Trono com informações recolhidas na corte chim: 
A nação dos Folangji foi sempre impedida pelo reino de Malaca, de modo que desde a fundação da grande dinastia Ming, nunca teve contactos com a China. Agora os Folangji, após terem destruído Malaca, vieram pedir o “fom” (2) à China. O Tribunal dos Ritos estudou o caso e deliberou: Não se pode autorizar o pedido de um reino que tomou a liberdade de exterminar outro que foi nomeado pela nossa corte como tributário. O seu pedido de ir em audiência à corte foi recusado. Ficaram hospedados na pousada oficial com os mesmos tratamentos e privilégios das outras nações. Essas gentes cuja fisionomia se assemelha à dos japoneses, usam roupas e comem comidas não muito civilizadas. Para os chins, são pessoas nunca dantes vistas”. 
– Como foi que vos cativaram? 

– Vossa mercê esteve em Pequim com Tomé Pires? Como vos foi lá? 
– Contai-nos tudo, por vossa vida, que nunca se soube ao certo o que vos aconteceu. 
Falavam, atropelando-se uns aos outros, com a alegria dos antigos tempos de liberdade e sonhos de fortuna, que renasciam no lar de Vasco Calvo, cuja esposa e filhos os recebiam com amor de mãe e irmãos. Este encontro de portugueses à sombra da Grande Muralha da China parecia tão improvável que Fernão o tomava por milagre ou feitiço. Era como se o Destino, ao tecer as teias das suas mesquinhas existências, houvesse determinado aquela encruzilhada nos caminhos das suas desventuras, para que os nove náufragos ali viessem achar a única pessoa capaz de lhes desvendar o mistério da embaixada que há duas décadas os chins mantinham secreto e os portugueses desesperavam de conhecer. 
Contemplando as filhas de Calvo, Ana de dezoito anos e Isabel de quinze (ou Meng e Lijie, respectivamente, porque os nomes portugueses apenas se usavam em casa), moças de gracioso e honesto parecer que os serviam com modos de donzelas bem-nascidas, Fernão sentiu o espinho da saudade cravar-se fundo no seu coração. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas quando ao gentil quadro se veio sobrepor a imagem de Huyen, a cativa cauchim que ficara na memória dos homens de Faria como a Noiva Roubada, mas que para ele fora muito mais do que isso e, embora tentasse olvidá-la, a sua perda era-lhe insuportável. 
Momentos antes, ao ouvi-las tanger e cantar, ora sós, ora a quatro vozes, acompanhadas por Gaspar, um pensamento tentador quase o fizera esquecer os males presentes. O seu patrono Pero de Faria tinha casado com uma gentia a quem muito amava e lhe dera numerosa prole, não pensava sequer em regressar a Portugal; Tomé Pires e o próprio Calvo desposaram mulheres chins, criaram filhos e alcançaram a paz. Também ele iria viver o resto da sua vida em Quansy, portanto, não seria de estranhar se lhes seguisse o exemplo e tomasse uma daquelas duas moças por esposa, se o pai lha quisesse dar apesar de não possuir nada de seu. 
Fechou os olhos aterrado não pela visão do seu futuro ao lado de uma formosa mestiça, mas por se dar conta que estava a desistir de regressar a Portugal, ao aceitar com resignação a ideia de ficar para sempre na China. Ergueu-se do banco num impulso de fugir para os matos, onde poderia gritar os seus medos em solidão, porém a voz de Calvo prendeu-o de novo ao lugar. 
– Tomé Pires foi boa escolha para embaixador porque, apesar de não ser fidalgo, era um letrado de natural discrição, muito hábil e aprazível a negociar. Sempre curioso em inquirir e saber cousas, acabara de escrever a sua Suma Oriental que, como ele mesmo me disse, era a primeira relação dos lugares do Oriente, portanto estava bem talhado para levar a cabo a sua missão. E a prova maior do seu valor foi que Zhengde, antes de ler as malfadadas cartas, folgou de o ver e fez-lhe muita honra e até jogou com ele às tabulas, estando toda a embaixada presente, a quem mandou banquetear por três vezes com os seus grandes. 
– Recebimento deveras espantoso! – exclamou Vicente. – Que lástima terem caído em desgraça! 
– O Filho do Céu entregava-se mais aos prazeres e vícios do que aos negócios do Império, preferindo frequentar os bordéis e passar meses seguidos no palácio Pao Fang, a Casa do Leopardo, que mandara construir fora da Cidade Púrpura Proibida para dar os seus banquetes e ter conversação com as suas concubinas e favoritos. Quando recebeu a nova do embaixador, preparava-se para fazer uma entrada triunfal na cidade, como comandante dos exércitos que nunca havia chefiado, para festejar como sua a vitória do general Wang Yang-ming sobre uma revolta encabeçada pelo príncipe de Nanquim. A vinda dos estrangeiros seria mais um incenso à sua gloriosa pessoa, por isso decidiu recebê-los, contra o conselho do seu general que não confiava nos folangji e pôs um espião no albergue onde pousavam, para ver como eram as suas armas e copiar os arcabuzes. 
Calvo sentia, pela primeira vez em muitos anos, o coração aliviado do peso da solidão e do desterro. Poder falar em português a compatriotas que lhe bebiam as palavras dava-lhe um novo alento. Com um fundo suspiro de satisfação, retomou o relato: 
– Zhengde fez outra cousa de pasmar: entrou nos paraus dos portugueses, mandou abrir todas as arcas, tomou os vestidos que lhe pareceram bem e fez mercê a Tomé Pires, dizendo-lhe que fossem a Pequim que os despachava… Contudo foi a partir daí que as desgraças começaram, primeiro com a morte de um companheiro durante a travessia das montanhas e depois com as cartas dos mandarins de Cantão e Nanquim, relatando os abusos de Simão d’Andrada. 
– Então o principal culpado sempre foi ele! – bradou Vicente. – Era de natural muito arrogante, sem cuidar com quem estava a tratar. 
– Para piorar o negócio, em Pequim, estava à espera do Imperador um enviado do rei de Malaca com uma missiva do seu soberano e sobrinho a pedir socorro para expulsar da sua terra os folangji que lha tinham roubado. Zhengde leu todas estas queixas e acusações, antes de Tomé Pires lhe poder entregar as cartas de Fernão d’Andrada e do rei D. Manuel com o seu presente, assim como uma do mandarim de Cantão, escrita quando os lauteaas ainda estavam de bem com os portugueses. 
– Tanto os portugueses da embaixada como os que vinham fazer veniaga foram acusados de espionação – disse Vicente. – Diziam que vínhamos espiar a terra para a tomarmos, como tínhamos feito na Índia e em Malaca, além de sermos tão selvagens que comprávamos e furtávamos crianças, filhos de pessoas honradas, para os comer assados. 
– Calai-vos, por Deus, que estais sempre a interromper! – protestou Borralho, com impaciência. – Vasco Calvo foi testemunha de ver, ouvir e sofrer, deixai-o contar a história miudamente, já que nenhum de nós a sabe tal como se passou! 
O anfitrião fez um gesto apaziguador e retomou o seu relato: 
– A partir de então, foi o fim da embaixada! O presente foi tido por mesquinho e as cartas do capitão-mor e do rei de Portugal julgadas falsas e traiçoeiras, porque os seus línguas ou iurubaças não as leram e, em vez de fazerem uma traslação fiel, escreveram-nas ao estilo destes reinos, mudando a substância delas sem nada dizerem ao capitão-mor e a Tomé Pires. 
“No seu traslado diziam que o rei dos folangji vinha oferecer páreas (3) ao Filho do Céu e pedir para ser seu vassalo e levar mercadorias boas e ricas para o seu reino, porém, quando os mandarins do Conselho do Imperador abriram as cartas originais, entregues por Tomé Pires, viram que a sua substância era muito diferente. A diferença das cartas e o pedido de concessão de uma casa em Cantão para uma feitoria dos portugueses confirmaram aos mandarins as suspeitas de que tínhamos vindo com falsidade espiar a sua terra e assim o escreveram ao imperador. 
Os quatro iurubaças foram descabeçados por terem saído sem licença das terras do Império e trazido os perigosos folangji, os seus servidores foram dados como escravos aos mandarins e as suas mulheres vendidas em Cantão como fazenda de traidores. O imperador mandou ainda arrasar a fortaleza de pedra que Simão Peres construíra e o lugar onde viviam os portugueses, defendendo os chins de fazerem tratos connosco e ordenando-lhes que expulsassem todo o estrangeiro que viesse fazer veniaga, sem o seu selo de vassalagem. O embaixador e a sua comitiva foram mantidos sob vigilância e proibidos de se acercarem sequer do palácio para fazerem as cinco mesuras de obediência, zumbaias necessárias para um embaixador ser admitido à sua presença e ter despacho. 
Por desgraça, Zhengde morreu sem ter dado despacho à embaixada e, com a sua morte, todos os negócios do Império cessaram e nenhuma decisão foi tomada enquanto o seu sucessor não se sentou no trono. Assim, no dia vinte e dois de Maio, sem nunca terem sido recebidos no palácio, Tomé Pires e os seis portugueses que restavam do seu séquito foram enviados para Cantão com toda a sua fazenda e o presente que o imperador recusara. Chegaram no dia vinte e dois de Dezembro, já sem Francisco de Budoia que morreu pelo caminho e foram metidos numas casas, onde estiveram durante trinta e três dias muito vigiados, sem poderem sair ou falar com alguém, sobretudo com estrangeiros. Com a subida ao trono de Jiajing, então com treze anos, confirmou-se a perdição da embaixada por ordem dos mandarins”. 
A voz de Vasco Calvo embargou-se com as penosas recordações. 
– Foi então que vossa mercê se encontrou com os da embaixada? – perguntou Fernão. – Como veio para cá com tamanho risco? 
– Em Malaca não se suspeitava de nada, porque os lauteaas de Cantão, ainda em vida de Zhengde, se apressaram a prender todos os portugueses que por lá andavam, para não poderem avisar-nos. Por isso, em Junho desse mesmo ano de vinte e um, eu e o meu irmão Diogo viemos com alguns navios a Tamão, onde nos montaram uma cilada e fiquei prisioneiro com outros que desembarcaram. 
“Cada vez que chegava um dos nossos navios, os mandarins enviavam recado para os portugueses virem a terra fazer veniaga e, mal os incautos punham o pé na praia, logo os prendiam com as suas fazendas. Pela calada da noite, para que os não sentissem, vinham em batéis ao navio, que tomavam às mãos, matando o capitão, os seus oficiais e os mercadores; furtavam as mercadorias e levavam os sobreviventes para os troncos, com as cabeças e as naturas dos mortos às costas, como troféus. 
Os mandarins dividiam entre si os despojos das naus e as mercadorias, registando uma muito pequena parte do saque para o imperador, como se fora espólio de corsários. Condenavam à morte todos os portugueses, assim como os seus aliados e criados malaios ou siameses, vendendo as suas mulheres e filhos como escravos em outras terras, livrando-se assim das testemunhas dos seus roubos e crimes. 
Vinte e três portugueses foram justiçados, cortados em pedaços: cabeça, pernas, braços, o tronco dividido ao meio pela barriga e as suas naturas cortadas e metidas na boca; outros foram mortos às frechadas pelas ruas, com muitos tangeres e festa, para que as gentes de Cantão vissem que não podiam fazer tratos com os nossos. Outros muitos morreram à fome e ao frio nas picotas. Foi durante as audiências do julgamento que me encontrei com Tomé Pires e os da sua comitiva, assim como com Cristóvão Vieira e mais três marinheiros de outras prisões. Estes encontros eram o nosso único consolo enquanto esperávamos pela sentença de morte”. 
A voz quebrou-se-lhe de novo e as lágrimas correram-lhe pelo rosto. Embora a mulher e as filhas pouco entendessem do seu longo arrazoado em português, vendo-o assim afligido romperam em pranto, perante o silêncio comovido dos degredados que não achavam na sua própria miséria palavras de consolo para lhes dar. Calvo abraçou-as e, limpando as lágrimas, concluiu: 
– Finalmente chegou a sentença que publicava que o embaixador e a sua gente só seriam livres de partir se os portugueses restituíssem Malaca ao seu lídimo rei, a quem a tinham tomado, como mostrava a carta do seu embaixador, o Tuão Hasan Mudelyar. 
– Os chins queriam que entregássemos Malaca? Uma conquista que tanto sangue custou aos nossos? 
– Uma condição impossível de satisfazer, nem mesmo para vos salvar! 
– Nem nós contávamos com isso! – protestou Calvo. – Esperávamos, contudo, que el-rei e os Governadores tomassem em conta as nossas informações sobre o fraco poder de guerra deste povo e nos viessem libertar pela força. Isso não aconteceu e, ao fim de alguns anos de prisão e maus tratos, só eu e Tomé Pires sobrevivemos. 
A noite cerrara-se em torno do lar acolhedor, onde durante algumas horas aqueles dez portugueses se esqueceram do degredo e da miséria, reinventando a sua pátria e o regresso ao seio da família para, reunidos à lareira, contarem as suas aventuras. Kexin e as filhas haviam acendido velas e candeias e a sua presença silenciosa, aliada aos sons familiares da casa – o roçagar dos panos, o tinir das porcelanas, os risos e correrias de crianças, o cacarejo das aves de capoeira – trazia-lhes paz ao coração, mitigando-lhes a saudade. 
– Vede como o tempo passou sem nos darmos conta! – disse Vicente, preocupado, ao ouvir o som do gongo na torre próxima. – Como estrangeiros e degredados, é perigoso andarmos a horas mortas pelos caminhos. 
– Tendes razão, é perigoso – assentiu Calvo. – Vinde de novo no próximo Domingo comer connosco e prosseguiremos com as nossas memórias. Vinde connosco dar graças a Deus por este encontro e por vos ter poupado a vida. Temos de orar em segredo por causa dos parentes da minha mulher, que são gente honrada mas gentia 
A esposa tirou uma chave do molho que trazia preso ao braço e foi abrir as portas de um oratório, semelhante ao de Inês de Leiria, com um altar onde brilhavam uma cruz, dois castiçais e uma lâmpada, tudo em boa prata. O casal e os quatro filhos ajoelharam e de mãos erguidas oraram num português tão bem pronunciado como se fossem nascidos e criados em Alcochete, a terra de seu pai: 
– Verdadeiro Deus, nós pecadores prometemos viver e morrer na nossa santíssima Fé Católica, como bons e verdadeiros cristãos, confessando e crendo na Vossa santa verdade, tudo o que tem e crê a Santa Madre Igreja de Roma, e destas nossas almas com Vosso precioso sangue remidas, Vos fazemos preito e menagem, para com elas vos servirmos toda a vida e na hora da morte vo-las entregarmos como a Deus e Senhor, cujas confessamos que são por criação e por redenção. 
Atrás deles, também de joelhos, os degredados sentiam grande turvação, mesmo os de coração mais arisco, por verem em terra tão longínqua e sem conhecimento de Deus, dois meninos e duas donzelas a orarem com tamanho fervor. Com a devoção de quem presencia um milagre, acompanharam-nos no Pater Noster, Ave Maria, Credo e Salve Regina. Passava de três horas da manhã, quando regressaram à sua cabana, ainda mal refeitos da maravilha.
1) Pahag.
2)Vassalagem com pagamento de tributos à China. 
3)Tributo pago por um soberano ou Estado a outro, em reconhecimento de vassalagem.
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2 Responses to O Corsário dos Sete Mares

  1. Muito obrigada pelo destaque dado ao meu romance. De fracto o AO não é saudável para a minha escrita.
    Deana Barroqueiro

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