Cartas Vermelhas

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Deixei-te em Moscovo quando tinhas quatro anos e agora tens vinte e sete. No meu espírito, o factor tempo não consegue prescindir dos seus elementos de assombro. Esteve a nevar. Vê-se do comboio. Sobre a neve caída existe uma névoa de imagens a pulsar. Os meus olhos afundam-se nesse embaciamento branco até esmorecer a luz de todo o olhar. Depois, observando o que se avista da janela, fixo-te nitidamente, em todas as idades em que não te vi crescer. […]

Nos meios que frequento, sou conhecida pelos meus entusiasmos e não há ninguém que não me identifique como uma comunista convicta. Nas festas, nos convívios, os meus lábios parecem bastante menos cansados do que realmente estão. Em público, quando pretendo defender uma posição, sou intransigente, cobrindo as diversas entradas dos argumentos. Mas, a mulher que os outros têm na imaginação é muito mais excessiva do que a que existe de facto. Nas suas fantasias perduro no rasto de uma figura quase mítica, marcada pelo seu itinerário revolucionário. Sinto a aprovação dos meus amigos. Para as pessoas desse círculo não existe melhor definição de uma “eleita” do que uma personagem que viveu circunstâncias venturosas e vicissitudes trágicas. Encaixo perfeitamente na categoria. Esses amigos ignoram quase tudo de mim, sobretudo como esse passado, o meu próprio passado, persiste tanto ou mais do que o presente, como um quarto selado, escondido sob uma parede falsa.

Ana Cristina Silva

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