Nocturno de Cristina Carvalho

Milhares de pessoas caminham nesta tarde lenta atrás da carruagem fúnebre que transporta o caixão onde Fryderyck repousa. Da Madeleine até ao cemitério Père Lachaise serão uns cinco quilómetros. Ninguém abandona o cortejo. Ninguém. O único som que se ouve e que se entende, é o moer da própria caminhada debaixo de tantos e tantos pés, o ranger cadenciado das solas dos sapatos, a música dum outro andamento pelas ruas de Paris. E a carruagem avança. Aristocratas, artistas, banqueiros, ricos comerciantes, belas e ricas filhas de ricos comerciantes, alunos e alunas, admiradores e amigos e amigas e muito povo indistinto, todos, todos avançam nesta tarde morna do dia 30 de Outubro de 1849, na direcção do cemitério. Sempre em frente. É já ali.

No mais íntimo silêncio, tal e qual como Fryderyck havia pedido, a urna saíu da carruagem, deslizou para mãos e braços de homens fortes que a ampararam e a fizeram desaparecer para sempre, com rapidez e desinteresse, por um enorme e profundo buraco aberto para o efeito.

Ludwicka aproximou-se um pouco mais. Abriu a tampa duma pequena caixa de prata que trazia com ela, retirou a luva da mão direita e, delicadamente, recolheu a terra que a caixa guardava. Era a terra da sua terra, terra dos campos de Zelazowa Wola, a aldeia onde Fryc nascera. Com as pontas dos dedos polvilhou com essa terra mãe a campa fresca do seu irmãozinho.

Fryc era o seu irmãozinho.

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