Brumas de Albertina Fernandes

 É engraçado como certas designações foram sofrendo alteração ao longo dos tempos: quando era criança, ouvia dizer que as pessoas da minha condição profissional eram “criadas de servir”. Isso mesmo – criadas de servir. Hoje, fazemos exactamente o mesmo que elas faziam, mas somos “empregadas domésticas”. Aprendi com a minha patroa que a isto se chama um “eufemismo”. Gostei da palavra, fixei-a na minha ‘disquete’ e, agora, sempre que vem a propósito, emprego-a, cheia de vaidade por saber falar ‘caro’; sei que impressiono as minhas ‘colegas’, quando nos encontramos no café, porque as outras só se preocupam com a maledicência em torno da vida privada dos patrões, ou com as suas próprias aventuras amorosas / sexuais de fim-de-semana. Não quero dizer que não me deixe também envolver por esse género de ‘passatempo’; de vez em quando, lá me descaio e levanto alguma ponta do véu. Ninguém melhor do que uma empregada doméstica para conhecer as intimidades das pessoas para quem trabalha, do género, a relação existente entre o casal, o tema mais comum das suas conversas, os momentos em que andam amuados, as dificuldades financeiras com que se debatem, a ‘ginástica’ que têm de fazer para manter as contas em dia e sobretudo para poderem pagar-nos, ou mesmo coisas do foro ainda mais privado – hábitos de higiene, do género quantas vezes tomam banho, ao longo da semana, quantas vezes trocam de roupa interior, quantas vezes deixam vestígios de noitadas de sexo nos lençóis. É verdade, nada escapa a uma empregada doméstica.

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