Ivo Andric: A ponte sobre o Drina

“Há coisas que, pela sua natureza, não podem permanecer ocultas, pois quebram todas as barreiras, por mais fortes que sejam, e atravessam todas as fronteiras, por mais guardadas que estejam. (“Há três coisas que se não podem esconder”, dizem os turcos otomanos: “o amor, a tosse e a pobreza.”) Era esse o caso daquele par de enamorados. Não havia na cidade um velho ou criança, homem ou mulher que os não tivesse encontrado num dos seus passeios por trilhos solitários nos arredores, perdidos na sua conversa e completamente cegos e surdos relativamente a tudo o que os rodeava. Os pastores estavam tão habituados a eles como àqueles pares de escaravelhos que se vêem em Maio nas folhas ao longo dos caminhos, sempre dois a dois num abraço amoroso. Eram vistos em toda a parte: juntos do Drina e do Rzav, ao pé das ruínas do velho alcácer, na estrava que vem da cidade ou nas imediações de Straziste, a qualquer hora do dia. É que para os apaixonados o tempo é sempre curto e nenhum caminho é longo demais. Por vezes iam a cavalo ou numa pequena carroça, mas a maior parte das vezes iam a pé, naquele andamento que se costuma ver em duas pessoas que apenas existem uma para a outra e cm aquele passo característico de quem está indiferente a tudo neste mundo a não ser o que cada um tem a dizer um ao outro.”

a ponte sobre o drina[1].jpg

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