«Tempo de magia: duendes, elfos e gnomos para adormecer sem medo» de Helena Osório

Iam já no segundo sono, quando Via começou a sentir picadas teimosas nos dedos dos pés. A mãe avisou-a de que, durante o tempo frio, até mesmo as meninas deviam dormir de pijama para não atraírem duendes e gnomos. Via fingia não a ouvir. Gostava de imitar a mãe em tudo (em especial, na vestimenta) e as calças ficavam melhor aos rapazes. Na história de Peter Pan, a menina vestia camisa de noite e não pijama como os irmãos. Ela não queria ser diferente. Ergueu-se, encostando as costas à cabeceira de madeiras lisas e sentando-se em cima da almofada. Os irmãos dormiam. Um com a cabeça entre as pernas, enrolado, e o outro aos pés da cama de membros esticados. A mãe tinha desaparecido e ela olhava, ansiosa, para o gnomo pendurado no dedo gordo do pé. Este tentava dizer-lhe algo TÃO BAIXO que a menina nada conseguia perceber. Estava, com certeza, a sonhar…

– Olá! Chamo-me Morag, sou o gnomo do amor.

Via abriu a boca de surpresa. Afinal, as histórias da mãe eram verdadeiras. Existiam alturas em que a menina pensava que ela inventava coisas para convencer os filhos e os levar a bem sem palmadas nem gritaria. De nada vale, ser agressivo – pensava a mãe e muito bem. Agora, Via sabia que «as mães nunca mentem» (escutava-a em pensamento, não conseguindo desviar o olhar daquela pequena criatura de pele cinza e olhos cor de violeta, com cabelos brancos a escaparem-se do forro quente de um gorro pontiagudo). O gnomo tinha a cara redonda e um sorriso de orelha a orelha. Quando ria com vontade parecia a lua cheia, doirada, destacada no céu azul petróleo. Teria ele raptado a sua mãe? Comeria ele seres humanos? Encolheu as pernas. Não deixaria o gnomo roer as unhas dos pés. Vara explicou-lhes a diferença: «o duende é um ser espiritual e o gnomo é de carne e osso». Via não os conseguia ainda distinguir e pensava se um espírito seria uma espécie de fantasma sem rosto. Esfregou os olhos, voltou a fixá-lo e esticou o dedo indicador para sentir que ele era um gnomo de VERDADE.

 Com ilustração inédita do Arquitecto Álvaro Siza e dos pintores Dulce Barata Feyo, Eduardo Nery, Fernando Veloso, Henrique Silva, Júlia Pintão, Margarida Leão, Mide Plácido e de sete crianças

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