Ana Bacalhau

ng2611483Ana Bacalhau é vocalista dos Deolinda e escreve na revista Notícia Magazine. Depois do corte, é possível ler uma das suas crónicas. 

TPC: breve opinião sobre os professores e a escola

Quando era pequenina, queria ser professora. Apercebi-me disso no dia em que fui dar uma aula de Gramática aos meus colegas do terceiro ano.

A professora tinha incumbido os seus alunos da tarefa de serem professores por um dia e apresentarem uma matéria perante a turma. Gostei tanto da experiência, que decidi que seria isso que iria fazer quando crescesse. Quando entrei no curso de Línguas e Literaturas já levava comigo este desejo de fazer da música a minha vida, mas o meu respeito pela docência nunca amainou. O que aprendi na escola vai muito para além das matérias em questão e ajudou-me nas minhas escolhas e postura perante a vida. Isso tenho a agradecer aos meus professores. Foram eles que me foram mostrando o mundo e que me ensinaram que só a pensar por mim é que poderia conquistá-lo.

Ser professor não é apenas uma profissão. É um chamamento. Um pouco como a música ou como qualquer arte. Ensinar é uma arte. É preciso que se nasça com talento para transmitir aos outros algo que está connosco, mas que não nos pertence exclusivamente. É uma profissão nobre. Dela depende o futuro de pessoas, de países, da humanidade. São eles que nos dão as ferramentas que nos permitirão enfrentar os maiores desafios da nossa vida. O que nos entregam não se pode quantificar. É muito mais do que notas e testes. O que nos entregam é algo muito importante: o nosso futuro. E não falo apenas do futuro das médias para a faculdade e das notas de final de curso para pôr no currículo. Isso parece ser o que mais se valoriza hoje em dia, mas para mim erra aquele que apenas vê a escola como um meio para atingir um fim material. Porque está a perder a verdadeira riqueza humana e intelectual que a escola encerra.

Não sei como será a escola de hoje. A memória que trago é de há mais de 15 anos. Muita coisa mudou desde então. E é isso mesmo que se deseja, que na escola, como na vida, se ande para a frente. O problema é que, ao ouvir o que dizem professores amigos, suspeito de que muito pouco andou para a frente e que demasiadas coisas andaram para trás. Não são só os alunos que levam trabalho para casa. Muito do trabalho de um professor é também levado para casa. O planeamento das aulas, a correcção dos testes, a avaliação dos alunos. Horas e horas que não são contabilizadas como carga horária efectiva, mas que excedem, em muito, o horário de trabalho aceitável para qualquer profissão. Achar que um professor trabalha menos horas do que uma outra pessoa com uma profissão diferente é errado. Ter de enfrentar turmas de trinta ou mais alunos é tarefa impossível de executar com a qualidade e a serenidade devidas. Não é possível acompanhar tantos ritmos de aprendizagem e sensibilidades de forma eficiente.

Poder trabalhar com os mesmos alunos durante vários anos é importante para que se possa desenvolver com eles uma relação de confiança. Andar a saltar de escola em escola não é benéfico nem para uns nem para outros. Para além de todas as polémicas com greves e exames e das opiniões contra ou a favor, existe, para mim, uma pergunta que nos devemos colocar enquanto sociedade: queremos uma escola que trate os seus professores como mestres ou como amestrados? Não creio que o meu gosto pela profissão esteja a toldar-me o raciocínio. Acredito mesmo que uma escola e uma sociedade que não respeitam nem dignificam os professores estão a preparar-se para um retumbante e doloroso chumbo.

ANA BACALHAU ESCREVE DE ACORDO COM A ANTIGA ORTOGRAFIA

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One Response to Ana Bacalhau

  1. Ao ponto a que isto chegou exige-se um trabalho desumano aos professores, aos quais resta muito pouco tempo para serem PROFESSORES.

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