Ana Leonor Martins

banner_humanetAna Leonor Martins é editora executiva da Just Media. Escreve a crónica “Woman”, na revista Human, exercendo, como cronista, o seu direito a não usar o acordo ortográfico.

Na edição de Março de 2011, Ana Leonor Martins exprimiu algumas perplexidades precisamente sobre o dito acordo. O texto está a seguir ao corte.

(Des)acordo ortográfico

Estou com um dilema. Sem falsas modéstias, sempre fui boa aluna a Português. E gosto de escrever, o que não seria difícil de adivinhar, dada a minha profissão, com vertente na imprensa. Mas por que é que isto é um dilema? Porque constato agora que afinal não sei escrever. Apesar de o tema do novo acordo ortográfico (o problema começa já aqui, devo escrever com caixa alta ou caixa baixa?) não ser de hoje, muito pelo contrário, admito que nunca lhe dei grande importância, por me parecer que nem sequer fazia sentido o debate. Há duas décadas ainda não se falava de crise, mas de certeza que haveria problemas e dúvidas mais inquietantes do que se devemos escrever actor ou ator. E, com tanto desacordo, também pensei que era só mais uma reflexão académica que não ia sair da gaveta. Ora, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi assinado em 1990, supostamente em defesa da unidade da nossa língua, entrou em vigor em 2009 e até 2012 decorre um período de transição em que os mais resistentes (entre os quais me incluo) ainda podem usar a grafia antiga. E tenho vindo a aperceber-me de que a coisa afinal pegou mesmo, com vários órgãos de comunicação social a adoptarem as novas regras de escrita. Por exemplo, no outro dia vi no telejornal da RTP1 um «direto» do «Egito». Pode ser falta de hábito, admito que sim, mas que coisa horrível… Para além de não ser propriamente muito coerente, porque no «Egito» vi os festejos dos «egípcios». Mas afinal, que sentido faz o ‘p’ andar a aparecer e a desaparecer? Dará assim tanto trabalho escrevê-lo? Também temos os meses do ano e as disciplinas do saber a escreve -se em caixa baixa, e mesmo tratamento merecem os logradouros públicos e os monumentos. Ou seja, agora trabalho na avenida da liberdade e ao fim do dia vou passear ao pé do mosteiro dos jerónimos. Será? E faço uma boa ação com convicção? O hífen também está a mais, por isso agora uso minisaia. E à medida que escrevo esta crónica sucedem-se os riscos vermelhos debaixo das palavras (de qualquer forma, nunca liguei a correctores automáticos). A questão parece estar em aproximar a grafia da fonética, mas a pronúncia do Brasil continua a ser diferente da portuguesa (as duas normas que supostamente se quer unir), e nós, mesmo com o novo acordo, continuamos a escrever corrupção, e eles escrevem corrução; nós temos ténis e eles tênis. Não percebo, mas para já também não quero perceber.

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One Response to Ana Leonor Martins

  1. Pela Língua Portuguesa Contra o acordo says:

    O acordo ortográfico NÃO entrou em vigor. Nem, nos seus próprios termos poderá entrar.
    O chamado II Protocolo, que mudou a regra da unanimidade não foi assinado E ratificado por todos os intervenientes, como foi convencionado e era necessário, pelo que a regra continua a ser a unanimidade . Não tendo Angola e Moçambique assinado e ratificado o acordo nem o protocolo,, o acordo não existe na ordem jurídica internacional – e, por isso, não existe na nacional, não podendo obrigar ninguém.
    Quem tem preocupações de cumprimento de Lei, que cumpra a lei em vigor – o Decreto nº 35 228 de 8 de Dezembro de 1945.

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