Um Longo Caminho para a Liberdade – Nelson Mandela

mandelaTinha eu pouco tempo de vida quando o meu pai se envolveu numa  disputa que teve por consequência a perda do seu posto de chefe em Mvezo  e que revelou um defeito do seu carácter que julgo ter transmitido ao filho.  Acredito que, mais do que a origem biológica, o que nos molda verdadeiramente o carácter é a educação, mas o meu pai possuía um orgulho rebelde  e um sentido obstinado de justiça que reconheço em mim próprio. Na sua qualidade de chefe – de régulo, como era geralmente conhecido entre os  brancos – o meu pai era obrigado a apresentar explicações dos seus actos  não só ao rei dos tembos como ao magistrado local. Certo dia, um dos súbditos do meu pai apresentou uma queixa contra ele por causa de um boi extraviado. Na sequência dessa queixa, o magistrado ordenou a comparência do meu pai. Quando este recebeu a convocatória, respondeu do seguinte modo: Andizi, ndisaqula («Não vou, estou a preparar‑me para a batalha»). Ora nesses tempos não era sensato desafiar um magistrado, pois tal atitude seria considerada insolente – o que neste caso correspondia à verdade.

A resposta do meu pai denotava implicitamente que não reconhecia a  autoridade do magistrado. Quando se tratava de questões tribais não se guiava pelas leis do rei de Inglaterra, mas sim pelos costumes dos tembos. Não era um problema de susceptibilidade, mas uma questão de princípio. Uma afirmação das suas prerrogativas de chefe e um desafio à autoridade do magistrado.

Assim que recebeu a resposta do meu pai o magistrado acusou‑o de  insubordinação. Não houve inquérito nem investigação – isso estava reservado para os funcionários brancos. O magistrado limitou‑se a demiti‑lo,  pondo assim termo à chefia hereditária da família Mandela.

Nesse tempo não me dei conta destes acontecimentos. O meu pai, que  pelos padrões da época era um aristocrata rico, perdeu não só a fortuna  como o título. Foi‑lhe sonegada grande parte das terras e do gado e os respectivos rendimentos. Confrontada com estas dificuldades, a minha mãe mudou‑se para Qunu, uma aldeia um pouco maior, a norte de Mvezo, onde podia contar com o apoio da família e dos amigos. Em Qunu, a nossa vida era menos faustosa, mas foi nessa aldeia próxima de Umtata que vivi os dias  mais felizes da minha infância e é de lá que provêm as minhas primeiras recordações.

Longo Caminho para a Liberdade. Autobiografia. Nelson Mandela

Planeta

Tradução de Victor Antunes; revisão de Fernanda Fonseca

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One Response to Um Longo Caminho para a Liberdade – Nelson Mandela

  1. anacrish says:

    Reblogged this on Português de Facto.

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