UM REI NA MANGA DE HITLER de José Goulão

goulaoO Sr. Serafim nem reparara ainda na garrafa arrumada às três pancadas na prateleira mais alta, espólio do antigo proprietário, que lhe fizera o trespasse precisamente há quatro anos, em 1936 — lembrava-se bem —, dizendo que precisava de ares para respirar porque aquela cidade o asfixiava cada vez mais. O Sr. Serafim atribuiu o desabafo do homem à situação da Rua do Crucifixo, ali um pouco posta de lado na Baixa de Lisboa, meio encafuada, como que enjeitada, mais escura que as vias nobres com acesso directo ao Terreiro do Paço e ao Rossio, mas ele não se importa, sente-se ali bem. Tenho outras explicações para a deserção do Sr. Tito, que mal conheci e depressa entendi, mas aqueles, como estes, não eram tempos para entrar em grandes explicações. Ficou o Sr. Serafim muito bem com a dele, na paz do Senhor.

(capítulo 1)

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