Morreste-me de José Luís Peixoto

As paredes voltaram a separar o inverno nocturno, permanente da casa e o ciclo
alternado dos dias e do mundo, alheio a nós, para lá de nós. Comigo, a casa estava
mais vazia. O frio entrava e, dentro de mim, solidificava. As várias sombras da
sombra de mim, imóveis, passeavam-se de corpo para corpo, porque todos eles,
todos meus, eram igualmente negros e frios. E abri a janela. Muito longe do luto
do meu sentir, do meu ser, ser mesmo, o sol-pôr a estender-se na aurora breve
solene da nossa casa fechada, pai. E pensei não poderiam os homens morrer como
morrem os dias? assim, com pássaros a cantar sem sobressaltos e a claridade
líquida vítrea em tudo e o fresco suave fresco, a brisa leve a tremer as folhas
pequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescer
natural natural, o silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno.

(excerto do 1º capítulo)

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