A segunda morte de Anna Karénina de Ana Cristina Silva

NAS TRINCHEIRAS DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
Os soldados retidos nos abrigos tornam-se espectros evanescentes. Como ninguém sabe se chegará vivo ao dia seguinte, a dor dos outros apenas desperta um vago eco de antigas comoções. Toda a sensibilidade se anula. São poucos os sentimentos que um espírito em pânico se permite. O corpo despedaçado de um companheiro de armas é apenas um incidente. Os gemidos não passam de ruídos que se juntam ao barulho infernal da artilharia. Os mais afortunados transformam os lamentos dos feridos num vago rumor ou mesmo numa música. Os verdadeiramente loucos usam as palavras como evasão para poemas de amor. A maior parte encolhe-se, cola-se ao chão perante o infindável troar das balas. Seguram com mais força a sua arma enquanto pressentem o cerco da morte. Mas todos, sem excepção, obedecem à lei militar segundo a qual não devem gritar quando tudo parece desmoronar-se.

 

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