AS BOAS PESSOAS (conto) de Helena Vasconcelos

British-37.jpg

A minha avó era uma romântica que sonhava constantemente com aventuras. Ficou em casa a tratar dos inúmeros filhos com um marido que foi um modelo de virtudes e um maçador impenitente. A este filho, o preferido, deu o nome do seu herói, Emílio Salgari, o escritor de Verona que, tal como ela, pouco viajou, imaginou tudo mas fê-la percorrer os Mares do Sul e o Oeste Selvagem com a força das palavras impetuosas, que ela lia alto para que o som reverberasse, magicamente, na sua cabeça, conjurando os odores, as temperaturas e as agruras das aventuras sem regresso. O tio Emílio faz justiça ao seu glorioso nome: é um anarquista irrequieto, um amante arrebatador, um pirata dos oceanos, um viandante incansável, um espertalhão que soube conciliar as oscilações de um mundo sempre em mudança com as suas crenças pessoais. Continua com uma saúde invejável, vigilante como uma ave de rapina, lúcido e sábio como Merlim. Com ele, a Natureza tem sido justa, num desses lapsos que acontecem, de vez em quando, mesmo na mais cruel das confrarias.

Para o Emílio não existem verdades absolutas. Entretém-se a questionar tudo com uma incansável firmeza, muito pouco apreciada por quem o conhece. Na Universidade, os alunos amavam-no pela sua excentricidade mas temiam a feroz argumentação que os fazia sentir perdidos, como se estivessem no meio do mar num barco a remos – sem remos.

Aqui: http://ameiodanoiteaocomecarodia.blogs.sapo.pt/

 

This entry was posted in Geral and tagged , , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s