Rui Ângelo Araújo, «Os Idiotas»

Numa banal tarde de Primavera, o Vasco levou o rapaz ao teatro. Depois de ter deixado o capacete do filho no bengaleiro e bebido uma cerveja no bar, instalaram-se os dois nas cadeiras da plateia para ver uma daquelas peças em que a expressividade física dos actores, como dizem alguns críticos amargos, tenta sem êxito compensar a ausência de dramaturgos capazes. O miúdo gostou medianamente do espectáculo, mas o Vasco ficou fascinado. Nos seus trinta e cinco anos de vida, jamais tinha imaginado que era possível alguém usar o corpo daquela forma: um reboliço caótico onde, espantosamente, era possível ainda perceber disciplina, padrão, coreografia. Aquelas pessoas no palco assemelhavam-se a vítimas de trombose, doentes epilépticos, loucos saídos do hospital psiquiátrico, mas no meio do frenesim, dos transes, das convulsões e das quedas percebia-se que exerciam autoridade sobre os seus membros. Pareciam desajeitados porque tinham decidido ser desajeitados. Caíam, mas levantavam-se por si mesmos. Derrubavam objectos no palco porque estava no guião derrubar objectos no palco. Eram enfim, donos do seu corpo e da sua vontade.

Rui Ângelo Araújo, «Os Idiotas», O Lado Esquerdo – Editora, 2013

This entry was posted in Geral and tagged , , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s