Para que serve a História? de Diogo Ramada Curto

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Se você decidiu iniciar a leitura desse livro, irá atravessar o mar de referências eruditas de Diogo Ramada Curto. Esse timoneiro navega com a mesma desenvoltura pela historiografia de Marc Bloch e Fernand Braudel, como pela sociologia de Maurice Halbwachs e de Pierre Bourdieu, faz incursões atiladas pelos meandros econômicos de Keynes e Friedman, organiza os debates em torno da história das ideias, de Carlo Ginzburg a Quentin Skinner, e se embrenha na literatura de Vargas Llosa e de Fernando Pessoa. Para chegar a bom porto, o percurso exige conhecimento vasto de campos díspares. Como exige a habilidade mais apreciável deste livro, a de traduzir o complicado ao simples, de reduzir ao essencial, de ir ao ponto.
Excerto do prefácio – Angela Alonso, Professora livre‑docente no Departamento de Sociologia da Universidade de São  Paulo; directora científica do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

Uma edição Tinta-da-china. O prefácio e a introdução podem ser lidos antes de comprar o livro.

Este pequeno livro foi escrito contra os que pensam que a utilidade da história está nas lições que podem ser retiradas do passado. É que nem o passado pode dar lições, nem este existe dissociado das questões que lhe colocamos situados no nosso próprio tempo. Começo por insistir neste ponto, por considerar que não existe  nada pior numa relação com o passado do que tratá‑lo como um depósito de factos ou figuras, de situações ou de processos transparentes, prontos a ser transformados em doutrina para explicar  o presente. A utilidade de fazer e escrever história — que só pode resultar de uma aprendizagem lenta, através da qual será possível conhecer grandes e pequenos processos de mudança social, que se desenrolam num tempo com múltiplas texturas — consiste em  aprender a ganhar distância em relação a um passado que não nos obriga. Pode mesmo dizer ‑se que a história — nas suas formas  mais elaboradas de consciência, com as suas operações de análise, explicação, interpretação e construção — nos liberta do passado.  Dito de outro modo, a história serve para nos treinarmos a tratar  o passado ou, mais propriamente, os processos de mudança como  se estes fossem um país estrangeiro, conforme já foi referido na  metáfora de uma geografia dividida em nações. Fazer história é, pois, um exercício de liberdade, através do qual aprendemos a tratar o passado enquanto tal e a não nos sentirmos obrigados à sua simples reprodução. A este propósito, mal vai a história quando serve para impor o passado e a tradição. E os historiadores que  levantam a voz em nome do passado e que se sentem autorizados a dele tirar lições para o presente — como se fossem simples guardiões de uma memória colectiva tomada como adquirida — são aqueles que têm mais dificuldade em reconhecer que a história  não é a mestra da vida. A vida é que é a mestra da história.

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