Por favor não queimem a cerejeira

A partir de hoje, com autorização expressa do autor, passamos a republicar a crónica semanal de João Luís Barreto Guimarães no Jornal de Notícias

João Luís Barreto Guimarães

Há um poema do poeta (e pediatra) norte-americano William Carlos Williams que cito com frequência sempre que me deparo com a insensatez, como a que decorre da intenção de alienar 85 obras do pintor catalão Joan Miró que herdamos da nacionalização do BPN. Intitula-se “A árvore despida”, e vou reproduzi-lo na íntegra:

“A cerejeira despida/ mais alta do que o telhado/ o ano passado produziu/ abundante fruta. Mas como/ falar em fruta perante/ tal esqueleto?/ Embora possa estar viva/ nela não há fruta alguma./ Por isso abatam-na/ e usem a madeira/ contra este frio cortante.”

O tema do poema é muito antigo: perante a ausência de fruta, incapaz de esperar pela colheita seguinte, o dono da cerejeira (cego por rentabilizar a árvore), propõe-se usar a madeira como fonte de calor. Porém, se queimar tronco e ramos, usando-a pela última vez, desiste de novas colheitas ao arder a fonte de produção. Cego pelo imediato, incapaz de investir em tempo, a ganância daquele dono destrói memória e futuro.

Salvo melhor opinião, a única coisa boa que sobrou da nacionalização do BPN foi exactamente esta colecção que, contrariamente ao que se julga, eticamente não pertence ao Estado, pertence aos cidadãos. É um símbolo de resistência. Fomos nós (ao injectarem capital no BPN, agravando o buraco da dívida) que a começamos a saldar com taxas e sobretaxas e impostos; é da mais elementar justiça que os nossos filhos (e netos) possam desfrutar desse património, enquanto o andarem a pagar.

O Governo está convencido de que pode arrecadar muitos milhões de euros com o leilão da Christie’s, em Londres, nos dias 4 e 5 de Fevereiro. Não digo que não. O que sei é que vai queimar de vez a colecção para se aquecer durante este Inverno financeiro. Recebe agora algum calor mas vai imediatamente dilui-lo no enorme icebergue da dívida. É um fraco lenitivo. Para o ano, não haverá cerejas nem cerejeira.

As 85 obras de Miró são representativas de 70 anos (!) do seu percurso. O que se pede ao Governo é que abdique, no imediato, dessa receita extraordinária, suspenda o abate da colecção e rentabilize-a no tempo. Publicite-a em Espanha, por exemplo. Opte por colher cerejas por muitas mais gerações com viagens de avião, pernoitas de hotel, refeições turísticas, deslocações entre cidades, entradas em museus. Os turistas virão! A sorte de nos ter vindo parar às mãos (no enorme azar que foi a perfídia do BPN) não é de menosprezar. Poucas vezes nos aconteceu (à excepção de Calouste Gulbenkian), cair-nos no colo um espólio assim. Um Portugal europeu constrói-se destas oportunidades. Não sejamos tão transparentemente agiotas. O que se espera dos estadistas é que saibam elevar-se à altura da ocasião. Churchill, por exemplo, nunca venderia a cultura; faria a guerra por ela.

A cidade de Leiden é famosa por ter a Universidade mais antiga e prestigiada da Holanda, uma referência de tolerância intelectual e religiosa. Foi fundada em 1575, por Guilherme de Orange, depois de os seus habitantes terem resistido durante um ano ao cerco de Filipe II de Espanha. Como recompensa pela sua inabalável resistência, Guilherme ofereceu aos cidadãos de Leiden a possibilidade de escolher entre a construção de uma Universidade, ou a abolição imediata de impostos para todos os cidadãos. Não preciso de recordar que, em detrimento dos seus interesses financeiros imediatos, os cidadãos de Leiden escolheram, sabiamente, a “cerejeira”.

 

(crónica publicada no Jornal de Notícias, ontem, segunda-feira, 27/1/2014)

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