Não compensa ser terrorista

João Luís Barreto Guimarães

Terá passado despercebido à maioria dos leitores que as autoridades sauditas proibiram os médicos de tocar no cadáver de mulheres. Segundo o “mufti” Adbelaziz al Sheij, uma autoridade académica com reconhecida capacidade de interpretar a lei islâmica (e de emitir “fatwas”), a inviolabilidade de um corpo também acontece depois da morte.

Já sabíamos que, em vida, as coisas não eram nada fáceis. Ainda há dias o JN noticiava que na Arábia Saudita as mulheres estão proibidas de andar de baloiço depois de a Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício (sic) as ter proibido de (digamos assim) baloiçar, uma vez que essa prática podia (e cito) “incitar os homens a cometerem abusos sexuais”. Ora, o que o “mufti” veio agora decretar é que passa a ser proibido tocar em mulheres, mesmo depois de elas transporem a porta para o Além.

Esta “fatwa” vem por certo abalar o ânimo dos 13 mil jovens palestinianos que nessa mesma semana se exibiram numa cerimónia pública em Gaza, demonstrando as habilidades militares adquiridas num programa de treino do Hamas que envolve já 49 escolas. Afinal, perguntar-se-ão os jovens guerreiros, de que vale morrer pela fé islâmica (ganhando direito ao Paraíso), se chegados ao Além não podem tocar no corpo das jovens que já lá estão?

Não sou dos que ousam entender toda a complexidade do Islão mas posso assegurar que praticamente tudo quanto tem de benigno me fascina. Sei que Maomé nasceu em Meca, 570 anos depois de Cristo; que professou a doutrina de um Deus único, invisível e todo-poderoso, de seu nome Alá; que o dia santo é a sexta-feira e o livro sagrado o Alcorão; que se deve jejuar no Ramadão, o mês lunar, e não se pode beber álcool nem comer carne de porco; que se deve rezar cinco vezes por dia voltado para Meca, cidade que se deve visitar pelo menos uma vez na vida; que o símbolo do Islão é a lua nova e que aquele que chama para a oração é o “muezim”. E, já agora, que foram pilotos indianos de religião muçulmana a guiar Vasco da Gama pelo Índico, de Moçambique até à Índia.

Mas sei também uma ou outra coisa, porventura, mais interessante; órfão de pai e mãe, condutor de camelos no deserto, Maomé veio a casar aos 25 anos de idade com uma patroa rica de 40, que durante toda a vida financiou o profeta e ainda lhe deu seis filhos, dois rapazes que morreram e quatro belas raparigas. Não deixa de ser um mistério que um povo que deu ao Mundo os algarismos decimais e o zero (ofuscando a numeração romana), a produção do papel que aprendeu de presos chineses, a conservação em árabe dos escritos de Aristóteles, os padrões dos azulejos que arrebatou do esplendor persa, fomente a subjugação das mulheres a quem tanto ficou a dever no início.

Quando leio essas notícias da epopeia de emigrantes cruzando o “Mare Nostrum” até à ilha de Lampedusa (nessa fuga imitando a “Hégira” de Maomé para Medina), pergunto-me se esses homens não terão já abdicado de um Paraíso celeste de “donzelas com olhos de corça”, em favor de outro lugar um tudo-nada mais terreno, onde possam beber “néctar puro” descansando em “grandes almofadas”, longe de comissões preocupadas com a virtude e o vício. Aposto que é disso que fogem.

Como II mais II serem 4.

(Crónica publicada no Jornal de Notícias de ontem, 3 de Fevereiro de 2014)

This entry was posted in Literatura, Media and tagged , , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s