O inconseguimento frustracional do soft power sagrado

A partir de hoje, com autorização expressa da autora, passamos a republicar as crónicas de Ana Bacalhau na Notícias Magazine. Assim, a voz dos Deolinda pode passar a ser lida também no Português de Facto

Ana Bacalhau

As palavras não são minhas. Nem sequer tenho a certeza de serem palavras, algumas delas. Mas são perfeitas representações de um certo tipo de postura que assumem alguns políticos, hoje. Veste-se o nada com trajes muito brilhantes, para que dê a impressão de que é tudo. Mas, na verdade, não deixa de ser muito pouco.

Lembro-me das palavras de Agostinho da Silva, um dos grandes mestres do pensamento e filosofia, que dizia «Podes, e deves, ter ideias políticas, mas, por favor, as “tuas” ideias políticas, não as ideias do teu partido; o “teu” comportamento, não o comportamento dos teus líderes; os interesses de “toda” a Humanidade, não os interesses de uma “parte” dela. E lembra-te de que “parte” é a etimologia de “partido”». Nos últimos dias, nunca tal afirmação fez tanto sentido.

A descredibilização dos partidos políticos, diz-se, fragiliza a democracia. O problema é ainda maior, quando são os próprios partidos os principais agentes da sua destruição e da destruição do seu bom nome. São, na ideia de muitas pessoas com quem converso, um repositório de interesses pessoais e corporativos, incapaz de produzir ideias novas e discurso coerente e claro. Uma espécie de clube, que escolhe os seus membros com base na sua obediência e fidelidade à hierarquia e não na sua integridade intelectual e ética. Mesmo sabendo que aí haverá pessoas de valor, interessadas principalmente em contribuir e não em beneficiar, a verdade é que uma grande parte dos que pertencem a partidos apresentam-se publicamente com um discurso cheio de distracções e despojado de qualquer ideia própria que possa ser relevante ou contribuir para o avanço da sociedade que pretendem governar. São de uma lealdade cega ao partido que os criou e que os irá promover. O problema é este: o nosso voto não elege pessoas de determinado partido para o Governo. Elege partidos, que, depois, elegem pessoas que nos irão governar. A lealdade dos políticos vai para quem os elege. E quem os elege são os partidos políticos. Uma bela e conveniente pescadinha de rabo na boca.

A mim, pessoalmente, preocupa-me que se afastem tanto da sua consciência que não sintam pejo em afirmar que a estão a trair em favor dos ditames do seu partido. Isso aconteceu recentemente, na votação para o referendo acerca da co-adopção por casais do mesmo sexo. Esteve tudo errado nessa votação. E o que me deixou ainda mais revoltada, foi a forma aparentemente displicente com que alguns deputados afirmaram votar não de acordo com a sua consciência, mas de acordo com o “dever” de lealdade ao partido. Que pessoas são estas que estão a dirigir o nosso destino, que atropelam aquilo em que acreditam para se manterem obedientes a uma disciplina partidária?

Mantendo este rumo, temo que os partidos políticos corram o risco de se perder no enleado linguístico disfuncional do soft power sagrado, levando a um inevitável inconseguimento frustracional para a democracia. As palavras, se pretenderem ter acesso ao contexto em que foram produzidas, são de Assunção Esteves e o vídeo da entrevista onde as proferiu está disponível no Youtube.

 

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