Pagar para trabalhar

João Luís Barreto Guimarães

Ninguém sabe (porque eu também nunca disse a ninguém) mas eu tenho uma colecção. Chama-se “Despesas que o cidadão paga para trabalhar”. Colecciono isso. É uma recolha algo exótica e surreal, admito, mas a verdade é que todos os dias ganha exemplos sem que eu faça nada por isso.

O engraçado (é mesmo muito engraçado!) é que, sem querer, eu próprio me tornei um cromo da colecção. Trabalhando a sul do Douro, vejo-me frequentemente obrigado a ter de ir operar a um hospital a 15 km do meu (fruto das fusões a que Correia de Campos se entregou), sem que ninguém tenha tido a amabilidade de perguntar pelas portagens ou pela gasolina de mais 30 km, resultantes da deslocação forçada até um local de trabalho com o qual não me lembro alguma vez de ter assinado contrato. Podia ser pior. No Hospital de São João, por exemplo, todos os dias se recebem os funcionários de braços (e cancela) abertos, cobrando-lhes o estacionamento como forma de agradecimento por mais um dia de trabalho dedicado.

Hoje trago à colação os polícias, a quem os ministros da Administração Interna têm permitido que sejam os próprios a pagar as dispendiosas fardas de serviço; o subsídio, nem uma das botas paga. Claro está que a manutenção também fica ao encargo deles, ainda que a farda se possa danificar no exercício da profissão; a decisão de lhes adiantarem ou não uma farda nova fica a aguardar uma complexa averiguação dos acontecimentos (vulgo “inquérito disciplinar”), não sendo líquido que se um polícia perseguir um larápio que lhe rasgue a farda com uma navalha (ou aquela se danifique numa cerca de arame ou num muro), venha a ter direito a uma nova. Não, casos há em que o ministro autoriza (generosamente) que seja o polícia a pagá-la, não vá dar-se o caso de este não apreciar o pesponto da costureira do Ministério. O que, bem vistas as coisas, me parece justo. Nesse particular, um polícia não havia de ser menos do que um bombeiro que também conquistou (sobre brasas) o direito a pagar do próprio bolso umas botas novas, caso as suas se queimem no combate a um incêndio.

Já quanto ao veículo com que persegue os criminosos, bom, aí, o ministro faz absoluta questão de que o mesmo seja de média cilindrada tipo jipe (ou Skoda ou Fiat Tempra) não vá dar-se o caso de embater nalgum BMW (ou Porsche ou Mercedes) que o larápio costuma frequentemente pedir emprestado ao cidadão e, para além de se habilitar a ser multado disciplinarmente com perda de dias de vencimento por um choque ocorrido em serviço, se ver perante a humilhante situação de ter de assinar uma Declaração Amigável com o facínora, ele, o agente da Lei, inimigo figadal do bandido.

Ora, parece-me duvidoso que um polícia, com estas regras, sinta grande motivação para perseguir o meliante. Mas, como o exemplo vem de cima, tenho a certeza absoluta de que o ministro da Administração Interna (quem quer que ele vá sendo, governo após governo) quando reúne com as chefias num desses almoços de trabalho onde chega de Audi A6 (para se congratular dos 76 milhões de euros obtidos em 2013, com a caça à multa), discute a fundo estes problemas e acredito piamente que ele próprio também pensa duas vezes (por vezes tendo de decidir numa questão de segundos) se há-de perseguir de garfo em riste uma gamba mais teimosa em pleno arroz de marisco, não vá dar-se o caso de no melhor pano cair a nódoa, e ter de ser ele próprio a pagar a conta da lavandaria.

Eu, se fosse o ministro, nem que fosse (como é mesmo que eles dizem?, por uma questão de brio?) perseguia-a.

(Crónica publicada no Jornal de Notícias, segunda-feira, 10/2/2014)

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