Prova de esforço

Ana Bacalhau

Diz-se que quem corre por gosto não cansa. Quer isto significar que, se fazemos algo de que gostamos, não perce­bemos o esforço a que nos submetemos para o fazer e não descansamos enquanto não chegarmos onde queremos. Agora percebo por que ando tão cansada.

Não fazia ideia. Só quando finalmente consegui parar du­rante mais do que duas semanas seguidas é que senti na alma o quão cansado estava o meu corpo. Exausto pela corrida que durou mais de uma década. Uma maratona, portanto. Eu queria que tivesse sido um sprint, mas, para que pudesse cortar a meta, estava–me destinado correr a maratona e assim o fiz.

Olhando para trás, vejo que não me poupei a esforços. Quando terminei os meus estudos na faculdade, consegui um trabalho a tempo inteiro. Chegou a haver uma altura em que, para além do trabalho e dos concertos com a minha primeira banda, ainda tinha aulas de canto e aulas de pós-graduação. Todas as horas dos meus dias eram dedicadas ou ao trabalho que me per­mitia subsistir ou ao trabalho que sonhava poder abraçar.

Quando finalmente consegui, pensei que poderia ter algum tempo livre para descansar e fazer algumas coisas de que gosto, mas que não tinha tido tempo de aprofundar ou de fazer com regularidade. Cozinhar, fotografar, ler, estar com a família, passear, «domingar»… Estava enganada. Não só não consegui arranjar tempo para descansar, como descobri que, quando se trabalha naquilo que se ama, a vontade de fazermos coisas e de avançarmos é tanta que acabamos por trabalhar ainda mais.

Como costumo dizer, nunca trabalhei tanto na minha vi­da como trabalho agora, que sou música. Para além de ser uma profissão criativa, o que por si só significa dedicar horas a fio à criação de algo, implica ainda muitas horas de trabalho técnico, ou seja, de ensaios regulares e de estudo solitário, bem como de pesquisa intensa. Depois, existem aquelas pequenas tarefas que, todas somadas, acabam por encher dias de calendário. Reuniões com a equipa técnica, para pensar e avaliar o conceito do concer­to, tanto ao nível do som como ao nível das luzes e da organização de tudo na estrada, reuniões com a equipa de produção/agencia­mento, para delinear a marcação de concertos, reuniões com o manager, para ir estabelecendo objectivos e traçando o caminho a seguir, reuniões com a editora e a promoção, para gizar o plano de edição de álbuns. Há ainda outras coisas que, não estando di­rectamente relacionadas com isto de se estar em palco ou de gra­var canções, são essenciais no exercício da nossa profissão: dar entrevistas, fazer sessões fotográficas, falar em seminários, palestras, workshops, tertúlias públicas.

E assim, sem me aperceber, a semana livre acaba por cor­responder a um dia livre, que é aproveitado para matar as saudades da nossa família e amigos, para tratar de assuntos burocráticos, para arranjar qualquer coisa em casa que precisa de arranjo. Só no final de tudo é que posso dedicar algum tempo a mim. O problema é que, mesmo conseguindo chegar aí, a cabeça teima em não desligar. Pensa-se nos assuntos que estão pendentes, nas coisas que andam a fervilhar aqui dentro, ideias, pensamentos, melodias, palavras.

Só neste ano consegui, pela primeira vez, parar. Duran­te umas poucas semanas, é certo. Mas consegui. E quando me le­vantei, um dia, e senti como se me tivessem dado uma tareia enor­me na véspera, é que percebi o quão cansada estava. Sabe bem pa­rar um pouco, esticar as pernas e recuperar o fôlego. Não tarda é hora de voltar a correr. Com gosto. E já mais descansada.

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