O Holocausto dos animais

João Luís Barreto Guimarães

Há uns anos, quando tive a oportunidade de organizar com Eugénio de Andrade a antologia de poesia contemporânea sobre gatos “Assinar a Pele”, escolhi para epígrafe o dictum de Jane Burden, a musa Pré-Rafaelita, “A dog, I have always said, is prose; a cat is a poem” (“Um cão, eu sempre disse, é prosa; um gato é um poema”).

Quem me conhece sabe que sou menos de cães do que de gatos, no entanto as horas da minha infância foram ainda patinhadas por cães desde a televisiva Lassie, a cadela de raça collie, ao infatigável Milu, companheiro de Tintim, passando por Timmy, the dog, dos “Cinco”, de Enid Blyton, ao pequeno Ideiafix, a mascote de Obélix; ou Pluto e Pateta da Disney; Snoopy, de Charles Schulz; os “101 Dálmatas”; “O cão dos Baskervilles”. A lista seria interminável.

Desde Diógenes que a identificação entre homem e cão é estreita, e se é verdade que “o cão é o mais fiel amigo do homem”, casos há em que o homem pode ser o melhor amigo do cão. É seguramente o que se passa com António Tavares, ex-criador reformado de 77 anos de idade que desde há 24 anos faz diariamente o percurso até Arouca (serra da Freita) para cuidar dos 26 Serra da Estrela e dos quatro Castro Laboreiro que mantém na sua parcela. Deixa o Porto às 6 da manhã, chega a Chão de Espinho às nove e só regressa depois de alimentar, mimar e fazer o asseio aos seus “meninos”, apenas para no dia seguinte embarcar em nova odisseia e ser recebido pelos seus cães como Argos reconhecendo Ulisses.

Há tempos, o JN lembrava como os animais de estimação estão a substituir filhos e netos (até por razões terapêuticas) e enfatizava esse afecto com a notícia de uma mulher de 44 anos que do meio da serra do Alvão lançou um lancinante pedido de socorro por telemóvel, informando que uma matilha acabara de matar a sua menina de três anos. Avançaram três equipas da GNR, uma viatura médica da VMER e uma ambulância para, chegados ao local, depararem com o cadáver de uma cadela.

Não são tanto os 140 km diários que começam agora a derrotar António (a quem naturalmente falta coragem para “abater os seus meninos”) mas os custos tornados impossíveis de sustentar com esse outro “abate” (o das reformas) que dão de comer tanto a idosos como a animais de companhia. Este drama recorda-me o poema de Wisława Szymborska “Monologue of a Dog” que narra na primeira pessoa as desventuras de um cão (já depois de morto) abandonado pelo seu dono na Segunda Guerra Mundial, o que nos lembra que se é iniludível que existiu um Holocausto de humanos, em tempos de escassez e míngua existe (ainda que oculto) um holocausto dos animais, independentemente de (como no poema) poderem ter pertencido a nazis ou a judeus. Nesta fase da vida, depois de tão bem ter cuidado dos seus “meninos”, António passaria de bom grado o testemunho a quem melhor pudesse cuidar deles. Num drama que não é só seu: há dias, à porta do supermercado, a “Animais da Quinta”, uma associação cujo objectivo é recolher e recuperar animais que se encontrem em situações de absoluta precariedade, solicitava a oferta de uma embalagem de ração como se de um pedido para o Banco Alimentar Contra a Fome se tratasse, e a própria Ordem dos Veterinários vai agora lançar a custas próprias, o “cheque veterinário” para ajudar famílias carenciadas a tratar dos seus animais de estimação.

Os cães têm essa dedicação extraordinária (que se chama lealdade) com a qual, convenhamos, dão lições aos humanos. São capazes de amar quem quer que seja que os ame, independentemente de credos, raça ou condição. Uma prova disso tive-a há dias, ao passar frente ao portão da Sinagoga Kadoorie Mekor Haim, no Porto, onde um cão muito bem tratado defendia com vigor o território dos seus donos. A raça do belíssimo exemplar que guardava o templo judeu era pastor alemão.

(Crónica publicada, segunda-feira, 24/2/2014, no Jornal de Notícias)

This entry was posted in Literatura, Media and tagged , , , , , , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s