E o teu olhar era de adeus

Ana Bacalhau

Tou Chih-kang é um fotógrafo chinês que capta os últimos minutos de vida dos cães condenados à morte, no Abrigo Animal de Taoyuan, com o intuito de fazer uma exposição que alerte para o sofrimento dos animais abandonados. As imagens são violentas para qualquer ser humano que dê valor à vida, seja ela de que espécie animal ou vegetal for. Poder-se-á dizer da exposição que explora a imagem de animais em claro sofrimento. Mas também se poderá dizer que o choque que as imagens possam causar levará a que alguns finalmente percebam que os animais das outras espécies sentem e que, ao contrário do que diz a nossa vetusta legislação, não são coisas ou propriedade, mas sim vidas que devem ser respeitadas.

Haverá muita gente incomodada por saber que tal exposição vai existir. Algumas pessoas por empatia com o sofrimento destes animais, outras porque não querem ser confrontadas com o sofrimento que se inflige a um animal quando é abandonado à sua sorte e à sua morte. Mas o que me motiva a escrever hoje não é aquilo que fere a sensibilidade de alguns seres humanos. O que me motiva a escrever são os cães e gatos e outros animais de estimação que são abandonados por quem não estima saber o significado de certos gestos, encarando-os de forma leviana. Porventura o valor da estimação varia tanto de pessoa para pessoa, que algumas pensam que estimar um animal é achá-lo giríssimo enquanto ele é bebé e achar uma chatice quando ele cresce, ou quando parte alguma coisa, ou quando adoece, ou quando deixa pêlos no sofá e baba nos sapatos que tanto estimávamos.

Se calhar é a palavra «estimação» que está a induzir alguém em erro. Talvez fosse melhor que se substituísse a expressão «animal de estimação» pela expressão «animal de família». Quando se resolve trazer um animal para a nossa casa, está-se a estabelecer um vínculo emocional com esse mesmo animal que o torna membro da nossa família. Para além dos laços emocionais que são criados, há ainda a responsabilidade assumida perante o animal, perante toda a família e perante a sociedade. Adoptar um animal é, portanto, algo que deve ser muito bem pensado e cuja decisão nunca, em circunstância alguma, deverá ser tomada de ânimo leve. Porque desistir, depois de adoptado o animal, não é uma opção. Desistir de um animal é falhar em toda a linha enquanto pessoa. É dizer perante os pais, os filhos, os amigos, a sociedade e o animal que acolhemos que não somos responsáveis pelas nossas decisões. Que não somos capazes de estabelecer laços emocionais. Ou que somos tão desumanos que conseguimos destruir qualquer laço emocional criado com uma displicência sórdida. E assim, deitamos gatos pelas janelas dos carros fora, deixamos cães à solta no meio da auto-estrada, largamo-los na rua e fugimos, porque sabemos bem a dimensão do que estamos a fazer.

É essa dimensão que é retratada na exposição de Tou Chih-kang. A dimensão da estupidez humana nos olhos daqueles cães que caminham para uma morte certa e que nos olham, uma última vez, numa última súplica para que lhes dêmos afinal a única coisa que sempre nos pediram e que alguém falhou em dar-lhes. Ao invés, damos-lhes o oposto. Damos-lhes o vazio, o abandono, a morte. Não seremos capazes de mais, enquanto espécie humana? Só um bocadinho mais. Já nem se pede amor, que parece estar tão em falta até mesmo entre os seres desta espécie. Respeito já era suficiente. Vergonha na cara também.

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