Doctor Paulo is in the House

João Luís Barreto Guimarães

Não perguntem mais, eu respondo: a série televisiva preferida do ministro da Saúde é o “Dr. House”, tal é o método que utiliza para gerir os cortes do Ministério: tentativa e erro. O JN titulou que o “Fim da comparticipação médica foi um lapso”, informando que a tutela veio agora afirmar que (afinal!) o diploma onde se propunha deixar de comparticipar a associação de antiasmáticos e broncodilatadores, bem como as vacinas contra o cancro do colo do útero e a hepatite B do Plano Nacional de Vacinação, foi um erro; como noticiou também que o “Helicóptero fica para já, promete Paulo Macedo”, dando conta de que o ministro garantiu aos autarcas que (afinal!) o helicóptero do INEM iria manter-se por Trás-os-Montes. São estratégias engraçadas: o Doctor House tenta “a ver se cura”; Doctor Paulo corta “a ver se passa”.

A coisa até dava para rir, não se desse o caso (espantem-se!) de o Ministério querer agora controlar a formação clínica dos médicos, ao pretender afastar a Ordem da definição dos programas de formação dos internatos e da decisão sobre a idoneidade dos serviços e respectivas capacidades formativas, competências técnicas próprias de um conselho de sábios como é cada Colégio de Especialidade. Como, pelos vistos, também tentou que os gastrenterologistas anestesiassem e vigiassem simultaneamente os pacientes (com algum terceiro olho?) enquanto lhes realizam colonoscopias. Caso aquele delírio totalitário vá avante, será uma das mais despudoradas tentativas de controlo do poder político sobre uma profissão desde o 25 de Abril.

Melhor faria o ministro se se envolvesse no ajuste do numerus clausus das faculdades de Medicina à capacidade formativa dos hospitais, de forma a não gorar a expectativa de centenas de jovens médicos compelidos a emigrar para não terem de aceitar a indiferenciação (ao serem impedidos de aceder a um internato de especialidade) depois do Estado ter gasto milhões na sua formação. Para de seguida “importar” médicos sul-americanos.

Melhor faria se, por exemplo, abrisse um inquérito aos Serviços Partilhados do (seu) Ministério da Saúde, a central de compras do SNS que tinha por objectivo poupar 100 mil euros em três anos mas deu sumiço a 113 mil em apenas dois com a adjudicação directa à empresa Aida Chamiça, Lda. para formação de funcionários de topo (e cito) em “gestão de stress”, através de workshops de executive team coaching e one shot sessions (em inglês técnico para enganar tolos). A médicos, enfermeiros e técnicos, os verdadeiros actores da Saúde sem os quais nada se trata (e a quem se pagam, comparativamente, autênticas misérias pela colossal responsabilidade que têm sobre a vida das pessoas) dificulta-se-lhes agora que frequentem, com apoios, actualizações científicas que em última instância beneficiam muito os doentes. Ainda bem que os neurocirurgiões, para dar um exemplo, que operam doentes “de cabeça aberta” e que o pior que lhes pode acontecer é cortarem o cérebro meio milímetro ao lado transformando em segundos qualquer um de nós num “vegetal”, não sofrem (e cito de novo) de “situações de grande stress diário”, talvez porque (afinal!) apenas lidam com banais cirurgias que não sendo coaching de nada, são somente life saving. Muito bem gasta a sua central de compras o nosso dinheiro, Doctor Paulo. Era uma caixinha de ansiolíticos em SOS (e em genérico!) para cada um desses senhores, e o stress ficava-nos a todos mais barato.

Outra engraçada do Ministério, é reduzir o défice próprio (delapidando o Estado social) empurrando dívida para as autarquias. Dou exemplos: o Ministério mandou os hospitais cortarem nas despesas com transportes e medicamentos? Não há problema: a Câmara de Gaia que garanta que “Bebés nascidos este ano também terão vacinas gratuitas”, estimando gastar 435 mil euros até 2017; ou, a de Arouca que avance com o “Apoio para transportes de doentes oncológicos”, despendendo 12 mil euros por ano. Engraçado como não é por um ministro decidir (por decreto) que os doentes não têm necessidades que as necessidades (puff!) desaparecem. E a pergunta até dói, de absurda: não é ridículo perceber que o dinheiro vem todo do mesmo sítio?

(Crónica publicada no Jornal de Notícias de 24 de Março)

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