O pássaro dos Segredos de João Morgado

«O pássaro dos Segredos» é o novo livro de João Morgado, autor do Diário dos Infiéis e Diários dos Imperfeitos (Prémio Vergilio Ferreira). Trata-se de um conto ilustrado que relata uma história de ternura e intimidade entre pai e filho, confidentes da vida num cenário antes do “25 de Abril” em que as “paredes tinha ouvidos” e era preciso guardar segredos. Uma criança a olhar ingenuamente para a revolução e a segurar a antena para ouvir na rádio o povo que nas ruas já gritava “liberdade”. .. (da imprensa)

A obra tem o prefácio de Martins Guerreiro, um “capitão de Abril”, que disse ter sentido “uma forte emoção” ao ler este conto da celebração de Abril e da Liberdade.​O poeta ​Joaquim Pessoa também assina o prefácio dizendo que todo o conto é em si mesmo “um longo poema”, um hino ao amor e à liberdade.

«Foi com curiosidade e interesse que iniciei a leitura deste conto. Estava longe de imaginar o que iria sentir, de como me sentiria identificado. Estava longe de imaginar o encanto, a força que tem esta celebração de Abril e da liberdade. A primeira leitura causou-me uma forte emoção…» Manuel B. Martins Guerreiro que participou na preparação do 25 de Abril de 1974, integrou os vários órgãos do MFA, foi membro Conselho de Revolução

 «Um hino ao amor, mas também à infância, à figura tutelar do pai, e à família como núcleo que preenchia “o ninho”, a casa carregada de ternura e de uma felicidade como que enclausurada dentro de um ovo que viria, mais tarde, a eclodir. Essa recordação da vivência com o pai-herói remonta a um tempo psicologicamente cinzento, frio, demorado, atmosfera bafienta de muitos temores interrompidos aqui e ali por algumas gargalhadas sarcásticas, como chicotes a forçar o andamento dessa besta sem cor e sem alma que a todos tolhia e ameaçava, na época em que “as paredes tinham ouvidos”. Joaquim Pessoa, poeta.

«… Eu achava meu pai enorme, imenso. A porta de casa era pequena para um homem tão grande, dizia eu. Por isso, acreditava que ele entrava pela janela – não que fosse maior que a porta, mas, se pela janela entrava o céu, também podia entrar meu pai; para mim ele tinha a grandeza do céu imenso em claros dias de Verão.

 E eu, com toda a força, a apertar o fio da antena na ponta dos dedos pequenos sempre que falhava a emissão, sempre que se perdia o sinal, sempre que se perdiam os sons que de longe nos traziam as novidades daquilo a que meu pai chamava “a revolução!”

 Ouviam-se músicas pelo meio e de novo voltavam as palavras e as ruas cheias de gente e o grito de um povo que estava com o MFA. Com os soldados – explicava meu pai -, com aqueles que tinham prendido os homens que já não mandavam no país. “Agora já não precisamos de ter segredos, pois não?”, perguntava eu. “Não. Agora podemos falar de tudo, acho que podemos falar de tudo…”, respondeu-me com um sorriso. Quando nos recolhemos no ninho, eu, pássaro pequeno, por dentro dos cobertores, enroscado no pássaro grande, adormeci a ouvir explicações sobre a palavra Liberdade…

Tinha por meus pais uma admiração imensa, um imenso amor. Amor é tudo o que ainda não foi dito e tudo o que nunca será dito, porque o amor não se diz. De todos os modos, por aquele tempo, eu era apenas um pássaro pequeno, se o amor se dissesse, eu não o saberia dizer – sabia apenas retribuir abraços quentes…»

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