A Selva de Ferreira de Castro

A SelvaNesta obra, Ferreira de Castro procura pacificar-se com o seu passado ao exorcizar a experiência traumática que teve nos seringais. O biografismo é fundamental na génese de “A Selva”. O autor português esteve muitos anos em território brasileiro, incluindo o espaço geográfico onde se desenvolve a acção do romance. A história de Alberto, o personagem que viaja em condições miseráveis para o Brasil, é a projecção da experiência do escritor que viajou, aos 12 anos, nas mesmas condições, entre esfomeados, num porão de 3ª classe.

Se Ferreira de Castro saiu por questões financeiras e pessoais, Alberto sai por questões políticas. Já no Brasil, e depois de nada acontecer como pretende, Alberto é obrigado a viver e trabalhar no seringal (campo de seringueiras/”árvore-da-borracha” para produção de borracha). Por ser europeu, é visto como uma menos-valia quando comparado com os outros trabalhadores.

Os seringueiros, na procura de vida melhor, contraem dívidas na aquisição e renovação de material indispensável à actividade laboral. O parco pagamento do seu labor pouco mais serve do que para abater essa dívida.

O capital sai do bolso do patrão para voltar a entrar no mesmo bolso. A miséria é um grande negócio.

A lógica esclavagista deixara de ter base na captura de negros (muitos foram exportados para o Brasil depois de raptados em território africano) para sustentar-se na dependência, pelo trabalhador, de um encargo acumulado e indefinido. A violência do capital incide sobre homens entregues a uma dívida estrutural contraída para exercer o próprio trabalho. O que Ferreira de Castro pensa em “A Selva” mantém a actualidade em tempos de neoliberalismo.
Tudo é vendável. Até a própria dignidade.

Dentro dessa realidade hostil, Alberto conhece a sua essência, a dos homens que o acompanham e a da própria selva. Tal qual o seu criador.

Alberto viria a substituir a competição pela cooperação, e o sentimento de superioridade por o da solidariedade. Ao chegar, via-se como ser individual, independente, e superior ao comum dos trabalhadores dos seringais. Quando sai, Alberto sente-se um elemento pertencente a um conjunto, dotado de uma causa social, convicto da justiça do combate contra a desumanização pela pobreza.

(daqui: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=754503)

NOTA: a Editora Cavalo de Ferro não usa o acordo ortográfico de 1990

(http://www.cavalodeferro.com/)

This entry was posted in Literatura and tagged , , , , . Bookmark the permalink.

One Response to A Selva de Ferreira de Castro

  1. Um dos livros que li, ainda muito jovem. Mais tarde reli-o, ficando com a sensação de o ter lido cedo demais. Mas ficou como uma referência. Uma obra excelente, cujo autor já tinha prendido a minha atenção com ”Emigrantes”. Considerei ”A Lã e a Neve” um livro de leitura mais fluída.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s