A Espada de Santa Maria de César Alexandre Afonso

– Meu esposo, porque não acompanhais estes bravos Cavaleiros? Porque não seguimos para a Revolução? Vale mais ser Rainha por uma hora do que Duquesa toda a vida! – Pegou na cauda do vestido e saiu da sala com toda a sua elegância e altivez, dignas de uma verdadeira rainha.

Dom João, o Duque de Bragança pede ao seu escudeiro para lhe preparar as armas e as montadas. E saiu em direcção a Lisboa, com toda a comitiva que o aguardava.

Depois de várias datas agendadas para o golpe e de todos os preparativos estudados até ao mais ínfimo pormenor, na noite de vinte e seis de Novembro reúne-se o grupo dos conspiradores. Todos votam e nesse voto o conde da Ericeira referiu:

– Somados todos os cabedais de que fazemos conta, vimos a achar, tirada a prova, quarenta fidalgos de Lisboa, com tão pouco séquito, que não chega a duzentos homens…

– E somos os suficientes! – Gritou Dom António Saldanha ao mesmo tempo que levantava a sua espada e gritava – Que os muitos por sermos poucos, não temamos. Viva a Restauração! Viva Portugal!

Um silvo metálico cortou o ar pesado da sala saindo das espadas desembainhadas a rasgar o silêncio e todos repetiram em uníssono.

– Viva a Revolução! Viva Portugal!

A data ficou marcada e foi secretamente difundida por todos os presentescom o juramento solene de que ninguém revelaria nada do que ali se tinha passado, em circunstância alguma.

O primeiro de Dezembro amanheceu puro e alegre. Os fidalgos portugueses levavam o seu plano de restaurar a independência portuguesa e entregar o país ao seu próprio destino. Tudo estava a postos nas carruagens espalhadas pelo Terreiro do Paço. Em sintonia com o sentimento patriota das suas gentes, lá no alto da Sé, o relógio da torre bateu as nove badaladas e como por encanto, os conjurados deixaram os seus postos, saltaram dos cavalos e estugaram o passo à última. Entraram em grupo no Palácio da Ribeira, desembaraçaram-se das capas, empunharam pistolas e desembainharam espadas. Foi um ataque de surpresa. Em poucos minutos dominaram a guarda espanhola da Vice-Rainha, derrubaram alabardas, invadiram as salas eencontraram a regente do reino, a Duquesa de Mântua que negou retirar-se, tendo tentado falar ao povo por uma janela e dissuadi-lo. Foi aí que Dom João Pinto Ribeiro lhe perguntou com áspera firmeza:

– Vossa excelência deseja sair por aquela porta, ou por essa janela? – A duquesa verificou a gravidade da situação e rendeu-se com toda a sua guarda.

– Descubram o traidor! Descubram o traidor! – Gritou Dom João PintoRibeiro, referindo-se ao Secretário da Duquesa, o Português Miguel de Vasconcelos.

– Está aqui! Está aqui escondido! – Chamou Dom Miguel de Almeida, ao mesmo tempo que o obrigava a sair, com a ponta da sua espada, de um armário onde estava escondido, no meio dos papéis. Este saiu, branco de espanto, e foi lançado da janela do paço para que a gente que ali ocorria soubesse que o traidor acabava de falecer.

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