Índice Médio de Felicidade de David Machado

A depressão do Xavier veio de lado nenhum. Como se ele a tivesse inventado. Nunca te disse isto, mas acho que ele inventou esta personagem – o miúdo triste de cabelo grisalho, olhar vago e cigarro a arder entre os dedos, os desenhos tão lúgubres nos cadernos, uma desesperança eterna em tudo à sua volta, um ar de suicida iminente –, eu acho que ele não se sentiu seguro da sua identidade e assumiu essa personagem negra e depois gostou, ou habituou -se, ou perdeu -se nela. Não interessa. O gajo tornou- -se aquilo, Almodôvar. Dias seguidos deitado na cama a olhar para o vazio entre ele e o tecto. Magro como se estivesse em greve de fome. As tatuagens de números nos braços, nas costas e no peito, algumas desenhadas por ele mesmo. Os comprimidos. A obsessão com as estatísticas. As equações matemáticas nas paredes do quarto. Os clientes que ele recebe a qualquer hora do dia ou da noite para lhes tatuar aranhas – e eu nunca percebi porquê só aranhas – a troco de misérias que mal lhe permitem sobreviver. E a ausência de qualquer noção de futuro. (pág. 17)

Prémio da União Europeia para a Literatura 2015

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