Poemas Escolhidos, de T.S. Eliot

t-s-eliot

Estou a ficar velho… Estou a ficar velho…
Hei-de andar com a dobra da calça revirada.

E se eu puxar atrás o risco do cabelo? Arrisco-me a trincar
um pêssego?
Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia.
Já ouvi as sereias cantando, umas às outras.

Creio que para mim não vão cantar.
Tenho-as visto na direcção do mar a cavalgar as ondas
Penteando crinas brancas de ondas encrespadas
Quando o vento revolve as águas escuras e brancas.

Ficámos nas mansões do mar nós dois em abandono
Entre as ondinas com grinaldas de algas castanhas purpurinas
Até que vozes humanas nos despertam e morremos naufragados.

Prufrock e Outras Observações (A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock), tradução de João Almeida Flor), p. 21.

Eu Tirésias, um velho de tetas mirradas
Entendi a cena e antecipei o resto —
Também eu aguardava o visitante previsto.
Ele chega, o jovem carbuncular, um funcionário
Numa modesta agência predial, de feição atrevida,
Um pobre diabo em quem assenta o brio.
Como um ricaço de Bradford cartola de seda.
A altura é, ele prevê, propícia,
A refeição acabou, ela indolente e cansada,
Procura convencê-la por carícias
Não repelidas, se é que indesejadas.
Afogueado e decidido, passa à acção;
As mãos intrometidas têm licença;
Não pede contrapartida a presunção
E até lhe é bem-vinda a indiferença.
(E eu Tirésias já de antemão penei
Tudo neste divã ou cama representado;
Eu que junto aos muros de Tebas me sentei
E entre os mortos mais rasteiros tenho andado.)
Pespega para acabar um beijo complacente,
E sai às apalpadelas, sem ter luz na escada …

A Terra Devastada (III. O Sermão do Fogo, tradução de Gualter Cunha), pp. 87-8.

Senhora, três leopardos brancos sentavam-se debaixo de um zimbro
À friagem do dia, tendo-se alimentado até à saciedade
Das minhas pernas do meu coração do meu fígado e do
conteúdo
Do círculo oco da minha caveira. E Deus disse
Hão-de viver estes ossos? hão-de viver
Estes ossos? E aquilo que fora contido
Nos ossos (que estavam secos) disse chiando:
Por causa da bondade desta Senhora
E por causa da sua beleza, e porque
Em sua meditação venera a Virgem,
Brilhamos nós com fulgor intenso. E eu que aqui estou
desmembrado
Encomendo os meus actos ao olvido, e o meu amor
À posteridade do deserto e ao fruto da cabaça.”

Quarta-Feira de Cinzas (II, tradução de Rui Knopfli), p. 123.

Nós nascemos com os mortos:
Vê, eles regressam e trazem-nos com eles.
O momento da rosa e o momento do teixo
Têm igual duração. Um povo sem história
Não está redimido do tempo, pois a história é um padrão
De momentos sem tempo. Assim, enquanto a luz se extingue
Numa tarde de Inverno, numa capela isolada,
A história é agora e a Inglaterra.

Com a atracção deste Amor e a voz deste Chamamento

Não desistiremos de explorar
E no fim de toda a nossa exploração
Será chegarmos ao lugar de onde partimos
E conhecer o lugar pela primeira vez.

Quatro Quartetos (Little Gidding, tradução de Gualter Cunha), p. 207

— T.S. Eliot, Poemas Escohidos, (traduções de João Almeida Flor, Gualter Cunha e Rui Knopfli) Lisboa, Relógio D’Água, Novembro de 2016.

***

The time is now propitious, as he guesses,
The meal is ended, she is bored and tired,
Endeavours to engage her in caresses
Which still are unreproved, if undesired.
Flushed and decided, he assaults at once;
Exploring hands encounter no defence;
His vanity requires no response,
And makes a welcome of indifference.
(And I Tiresias have foresuffered all
Enacted on this same divan or bed;
I who have sat by Thebes below the wall
And walked among the lowest of the dead.)
Bestows one final patronising kiss,
And gropes his way, finding the stairs unlit . . .

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