Avieiros, de Alves Redol

avieiros

O escritor não é ser passivo ante o mundo que o cerca. Apaixona‑se sempre. A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica. Recusa padrões, fórmulas, os caminhos fáceis do naturalismo, mesmo que surjam, como agora, sob disfarces de vanguarda. Escolhe, representa, desencadeia a percepção e a imaginação do leitor: entrega‑lhe um instrumento, um estímulo, para penetrar na realidade e interpretá‑la também por sua vez. Para que cada leitor, outro homem biológico e social, sensitivo e diferenciado, recrie a seu modo, por vias algumas vezes insuspeitadas, a nova realidade que o escritor teceu. Todos eles, individual e colectivamente, participam na criação constante de um corpo vivo, projectado em milhentas imagens que se focam e desfocam ao sabor de quem lê e reimagina, segundo o tono que os habita. Também sob a coacção do grupo social, familiar ou político de que participam; segundo também o momento, o exacto momento psicológico em que o escritor cria e o público lê ou medita. Mas voltemos à minha experiência espontânea, logo depois premeditada. Muitos chamavam recolha, talvez impropriamente, a esta busca de contacto humano; outros apoucaram o processo, impropriamente também. Na verdade, não se recolhem os materiais da vida; vivem‑se. Ou inventam‑se. Mas escolhem‑se as vivências ou as invenções quando um escritor sabe para que vive. E como lhe importa viver.

[…]

A areia cavava‑se num salto brusco; quando vinham cabeças‑d’água, o rio estendia‑se até lá, numa curva escondida aos olhos de quem navegasse de Valada para baixo. Mais viçosas do que as outras, a frescura das águas dava calmante à sede; as moitas que a tapavam do poente cresciam sem licença de Deus.

O calor esbraseava. O trabalhar de um tractor era o único som que andava no espaço. Os gados estavam recolhidos e não tangiam badalos, enquanto os pássaros passavam, numa vertigem, em busca de sombra.

[…]

«Na companha do Zé Malho pouco dinheiro e muito trabalho», dizia‑se pelo Tejo, entre Muge e Azambuja, onde as aversões lhe pesavam tanto como os lustros dos que almejavam ganhar a simpatia do mestre Espanta. Ambos lhe quadravam, porque no seu falar pachorrento, um nada cioso, ele asseverava que «na balança da vida nem os amigos devem pesar muito, nem os inimigos tão-pouco; porque se de uns se precisa em horas de aflição, dos outros há que saber fazê‑los também, se um homem não quer ser tomado por parvo ou parrana».

Chiquinha deu‑lhe a volta. Botou-se na sua cama quando a mulher lhe faltou e, embora o fervesse de ciúmes, sabia administrar o marido em proveito do compadre, tudo tão certinho, sem sustos, que o Zé Malho a pensava com artes de adivinha ou bruxaria. Ganhara‑lhe tanto em amor como em receio; e até já se metera com tabelião por mor do testamento, deixando quanto avezava ao afilhado, um menino saído à mãe e que esta espantara para um colégio interno, na esperança de fazer dele um doutor de leis.

Neste imbróglio de afectos, o Espanta inchava a vida e o pecúlio.

Oito homens chegavam para a lida. Metade deles eram avieiros com mulher e estas ajudavam ao trabalho, embora não ganhassem parte. Traziam‑nas para ficarem juntos, mas também para assegurarem o contrato da safra seguinte. O Espanta sabia escolher pessoal, mandriões ao largo, nada de favores em coisas de obrigação, porque nisso nem a Chiquinha metia o bedelho, garantia ele. Bastavam‑lhe os seus devedores para lhe pagarem em trabalho o dinheiro e os juros que emprestava; alguns desses preguiçavam, e até um deles, o Zé Mira, pai de oito filhos, acabara por lhe negar a dívida, crente de que escaparia aos compromissos com o Espanta.

Esquecera‑se de que o Tubarão, nome de peixe daninho, era alcunha no Tejo para o fiscal da pesca, que passava por sócio nas redes do José Malho, dizia‑se à boca pequena. A verdade é que nunca lhe apreendera qualquer arte, por muito que o Espanta atropelasse os regulamentos; para as outras companhas fazia de aventesma, via tudo, sabia tudo, tinha espias de sua conta, e as multas não paravam: a matrícula, as licenças, os números bem pintados, as horas dos lances, leis escritas e leis inventadas por ele, tudo servia ao Tubarão para arranjar castigos a quem não andasse nas suas graças. Caiu‑lhe o Zé Mira debaixo da malvadeza e nem a criançalha lhe valeu para amolentar o coração de pedra do fiscal da pesca.

Pisava‑o a sete pés com a sua sombra malina, sem cuidar da fome dos meninos nem da doença da Isabel Mira, um bafo de gente depois da anemia que agarrara com as sezões. Falam deles os quatro avieiros, enquanto esperam o lance do fim da tarde. Chico Guerra conta que o pescador perseguido vive pràs bandas de Alcochete, sem poiso certo, escondido nos esteiros do Tejo, como se fosse um ladrão fugido à justiça; Tóino da Vala diz que o pai o encontrou em Alhandra, magro e velho, parecia um bicho monteado, não há direito!, não há direito!, logo depois emendou a palavra (não vá alguém contar ao Espanta), também o Zé tinha culpa, contas são contas, e não fica bem negar o que se deve a qualquer que nos ajuda nas horas de aflição. Arreganha‑se com ele o Bogas.

‑ O homem não se negou, sou eu que te digo. Ouvi a conversa toda: o Mira mostrou um papel assente com os dinheiros, e vai daí achou que já não devia nada. E este queria receber mais cem mil réis de juros e mais não sei quê…

Olinda Carramilo lembra‑se duma conversa do padrinho com a mulher:

‑ O Espanta não descansa enquanto não mercar a ponte de Muge por onde passa o comboio. Quer tudo o que vê, é um garganeiro. Se lhe vendessem a ponte, ele havia de comprá‑la.

‑ Cala‑te aí com conversas adiantadas. Quando os homens falam, as mulheres calam‑se ‑ intervém o Tóino da Vala num arrenego.

‑ Pois sim, Tóino, pois sim!… as mulheres basta trabalhar e ter filhos, não?!…

‑ Ninguém te chamou à fala.

Fica o Tóino repeso das más palavras, quando repara nos olhos tristes da companheira e no silêncio em que caem os três camaradas. Mas ele levanta o olhar num leve aceno de cabeça e o grupo de avieiros segue‑lhe a direcção. Ali perto, encostado a um choupo, o Virò Norte entretém‑se a cortar uma côdea a canivete, parece distraído, ninguém deu por ele a não ser o Tóino; diz‑se, dizem os outros murtoseiros, que o Virò Norte espia a companha para encher os ouvidos do Espanta com o que vê, escuta e inventa. Foi ele no fundo que tramou o Zé Mira há duas safras, chamando‑lhe langão à frente do outro.

— Alves Redol, Avieiros, Caminho/Leya, 13.ª Edição, Outubro, 2014, pp. 14-5, 75 e 182-5

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