Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos, de José Mário Silva (org.)

JMS FMV

 

O título desta antologia — Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos — contém um adjectivo problemático. No conjunto dos muitos milhares de poemas escritos por autores portugueses num século inteiro, como escolher «os melhores»? E o que significa «melhor» em poesia? Qualquer escolha desta natureza, mesmo no caso da obra de poetas que já sobreviveram ao crivo da posteridade e merecem um lugar no cânone, será sempre imperfeita, discutível, precária. Uma antologia diz sempre mais sobre quem selecciona do que sobre a matéria seleccionada.

— José Mário Silva, excerto de “Breves Notas em Jeito de Introdução” (p. 13)

***

De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

— Hélia Correia (p. 73)

***

Pára-me de repente o Pensamento…
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria… em que, levado…
— Anda em Busca… da Paz… do Esquecimento

— Pára Surpreso… Escrutador… Atento
Como pára… um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo… ante seus pés rasgado…
— Pára… e Fica e Demora-se um Momento…

Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora

E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um Olhar d’Aço, que na Noute explora…

—Mas a Espora da dor seu flanco estria…

— E Ele Galga…e Prossegue…sob a Espora!

— Ângelo de Lima (p. 102)

***

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros                                                             

Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um                                                             

aperto de mão e um poema     

Paul Celan (*)

 

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

— Ana Hatherly (p. 124)

(*) [Nur wahre Hände schreiben wahre Gedichte. Ich sehe keinen prinzipiellen Unterschied zwischen Händedruck und Gedicht].

***

Descobre a flor que há
na rosa, as coisas
mais para lá do que é
visível. A serrilha
da fotografia magoa
as mãos, quando entrei
pentearam-me, fizeram
incidir o projector, eu
não sabia que tudo ia
ficar para sempre
Depois repeti algumas
vezes: descobre a flor
que há na rosa, espera
que a adivinhem
sob as pétalas. Olho
a cegonha no álbum,
sorrio quando vejo
os cantos fixados, o nó
da gravata, a selecção
do melhor fundo.
Crescia a voz no quarto
dos sinais, crescia
o vento no quintal
da infância. As folhas
do eucalipto tapavam o ar
do minério, o petromax
dirigia a luz no túnel.
Cada vez mais para dentro
da terra, antes de cada
desabamento eu ouvia
a própria voz: descobre
a flor que há na rosa,
oferece apenas aparência.
Se ao nascer do dia
caminhas na superfície
da terra aguardas
que nada tenha mudado.
Surpresa de ver
o sol, o rosto de sobre quem
te deitas, os dedos
reconhecendo as formas.
Conhecem-te os gestos. Mas
só tu saberás a flor
que há na rosa.

— Helder Moura Pereira, “Uma Flor” (p. 158)

 

Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos, José Mário Silva (org.), Companhia das Letras, 1.ª Edição, Novembro 2017

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