Hamlet, de William Shakespeare (tradução de António M. Feijó)

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Polónio Ofélia, põe-te a andar aqui.  — Senhor, se vos apraz,

Escondamo-nos. — Lê aqui neste livro,

Que a aparência desse acto possa colorir-te

A solidão. — Muitas vezes somos culpados disto,

Em demasia provado, que, com ar de devoção

E pios actos, de açúcar recobrimos

O próprio diabo.

Rei (Aparte) Oh, como isso é verdade.

Com que látego me lacera esse dito a consciência.

A face da meretriz, embelezada pela face cosmética,

Não é mais repelente a essa coisa que a empola

Que o meu acto à minha palavra mais pintada.

Ah, que terrível peso!

Polónio Estou a ouvi-lo chegar. Retiremo-nos, senhor.

(Saem Rei e Polónio)

(Entra Hamlet)

Hamlet Ser ou não ser, eis a questão:

— William Shakespeare, Hamlet (tradução e notas de António M. Feijó), Lisboa, Relógio D’Água Editores, Novembro de 2015, p. 111

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Amor e outras pedras preciosas, de Gilda Nunes Barata e Danuta Wojciechowska

 

«A obra da escritora Gilda Nunes Barata, com desenhos da ilustradora Danuta Wojciechowska, foi oferecida pela autora à APCL e conta a história da luta de uma “gota preciosa” que vivia numa poça de água que fica doente, numa analogia com o cancro do sangue».

Nota:

A autora Gilda Nunes Barata e o Professor Manuel Abecasis não seguem a grafia do Novo Acordo Ortográfico.

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***

Nótula acerca da nota: ver nótulas de Portugal, de Torga e de De Mal a Pior, de Pulido Valente.

 

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De Mal a Pior, de Vasco Pulido Valente

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À esquerda e à direita anda por aí muita gente indignada por causa do protectorado de que Portugal sofreu e, segundo alguns patriotas sem mancha nem tumor, continua a sofrer. Isto deixa um indivíduo de boca aberta por duas razões.

Vasco Pulido Valente, “Protectorado“, in De Mal a Pior, Crónicas (1998-2015), selecção de Miguel Pinheiro, Publicações D. Quixote, 2016, p. 165.

***

Nótulas (ver Portugal, de Miguel Torga):

1 – “Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990” (p. 6).

2 – Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é o nome da coisa.

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Diário do Farol – A Ilha, a Cadela e Eu , de Ana Cristina Leonardo

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Avançamos pela areia dura. Eu caminho em linha recta, ela corre aos esses, levando e trazendo os paus e as conchas que lhe atiro para longe, na direcção do mar. A água já não a assusta. Ainda assim, quando as ondas rebentam, dá enérgicos saltos sobre as quatro patas; fica suspensa no ar por um instante, como se contrariasse a gravidade, e depois volta a correr para mim.

Ana Cristina Leonardo, Diário do Farol – A Ilha, a Cadela e Eu, – com fotografias de Maria Leonardo Cabrita, colecção «LYRYCA», Porto, Hierro Lopes, 2016. p. 22.

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Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy, de Filipe Melo, Juan Cavia e Santiago Villa

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O mais simpático (e obeso) lobisomem português está de volta para uma nova aventura, com a ajuda de Pazuul Nghwaiatuu, o seu assistente demoníaco, e de Pizzaboy, o seu estagiário não remunerado. João Vicente «Dog» Mendonça vai narrar o seu passado atribulado, numa série de episódios que nos levam COLOR_Powertrio14-06desde a sua pequena aldeia até às profundezas do Loch Ness, passando pelos sinistros laboratórios nazis da Floresta Negra.

A primeira BD portuguesa do século XXI a tornar-se um «best-seller».

Multipremiada no Festival de BD da Amadora e na Central Comics.

Publicada nos EUA pela Dark Horse Comics.

«O livro que estão prestes a ler é brilhante — verdadeira liberdade de expressão com belíssimos recursos brechtianos. Os autores não só quebram a quarta parede, como a rebentam pelos ares!» — Lloyd Kaufman, Prefácio

Argumento: Filipe Melo
Desenho: Juan Cavia
Cor: Santiago R. Villa
Prefácio de LLOYD KAUFMAN

Um livro das Edições Tinta da China.

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Doze Segredos da Língua Portuguesa, de Marco Neves

 

12976892_1037327609666974_1470404371410362932_oEste livro começa com uma advertência: ele pode fazer confusão a pessoas habituadas ao pânico. Leu bem, mas eu repito: este livro pode fazer confusão a pessoas habituadas ao pânico. Temos aqui um livro perigoso, portanto? Nem mais. Ele próprio o reconhece. Trata-se de pessoas, importa esclarecê-lo, em pânico linguístico. Aquelas que andam numa aflição à ideia de darem erros, aquelas para quem tudo no idioma ou está perfeito ou está inteiramente errado, aquelas também que se pelam – sim, essa perversão existe – por apontarem, a quem lhes passa resvés, as insanidades (reais e, o mais das vezes, fantasiadas) que calhou cometer. Em suma, gente para quem o idioma é um campo de minas infindável e, não se diria, bastante aprazível.

Do Prefácio «Os falantes respeitados», de Fernando Venâncio

Doze Segredos da Língua Portuguesa é uma publicação da Guerra e Paz.

Marco Neves é, entre outras coisas, tradutor, revisor, professor e autor do blogue Certas Palavras. É pai há três anos. Talvez já só lhe falte, portanto, plantar uma árvore.

 

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passos perdidos, de Paulo Varela Gomes

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O autor imagina Anna W. com a aparência, a voz e as maneiras da actriz sueca Alicia Vikander, mas os leitores terão de acrescentar duas décadas às imagens que encontrarem dela, porque Alicia Vikander nasceu em 1988, tendo portanto vinte e seis anos quando se escrevem estas linhas.

Todavia, encontraremos também Anna W. noutras para‑ gens e noutros tempos desta narrativa. Terá primeiro dezasseis anos, depois vinte, a seguir trinta e três, finalmente quarenta e cinco anos, e também nestes casos as imagens de Alicia Vikander deverão ser recompostas na imaginação da leitora, tal como o são na do autor. Estes saltos temporais não farão grande diferença, porque o autor acredita que a actriz se inclui no género de pessoas que parecem ter assinado um pacto de não‑agressão com o tempo: aparentam ter sido sempre mais velhas do que realmente são, e mais novas quando finalmente chegam a velhas. Estas pessoas têm rostos fortes, não exactamente feios ou bonitos, marcados por uma indiferença à mudança que é quase geológica.

O novo romance de Paulo Varela Gomes. Vencedor do Prémio Pen Narrativa 2015.

Para uma leitura das primeiras páginas.

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O ACTO DA PRIMAVERA: PORTO EN DE MODERNITEIT 04.03 > 29.05

Lamentavelmente, a RTP refere-se ao ciclo  O Acto da Primavera: Porto en de moderniteit na confusão gráfica habitual:

Em Bruxelas, vai decorrer o ciclo intitulado “O ato da Primavera: Porto e a Modernidade”.

É verdade que a Primavera é Primavera, mas não é verdade que o acto seja ato, como podemos, aliás, verificar através da excelente grafia adoptada no cartaz.

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Está de parabéns a organização.

Uma excelente sugestão de Lisete Rodrigues.

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Clave de Sol – Chave de Sombra: Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira, de Teresa Martins Marques

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O presente livro resulta da tese de doutoramento da autora, apresentada na Universidade de Lisboa, agora muito ampliada e refundida, tendo como alvo um público não apenas académico. Estudo integrador dos diversos géneros que configuram a Obra de David Mourão-Ferreira, apresenta novas linhas de leitura, que ultrapassam o rótulo de poeta do amor e da mulher, dando relevo às polarizações da memória e da inquietude, manifestadas sob a forma de melancolia, indecisão, deriva, angústia, medo, suspeita, ciúme, traição, culpa, remorso, ameaça, vingança, suicídio, agressão sexual e até mesmo assassínio. O trabalho resulta do contacto directo, em primeira mão, com o Espólio de DMF. Tomam-se como base de trabalho não apenas materiais literários éditos e inéditos, mas também alguns não-literários que permitem esclarecer os primeiros. A tipologia do corpus documental é diversificada: esboços, esquemas prévios, notas de leitura, entrevistas e marginalia. É citada alguma correspondência, anotações de índole literária do Diário Íntimo da juventude. O vaivém inter-géneros e inter-obras é o processo fundamental que dá conta da coerência e do trânsito entre temas e motivos, que de obra em obra vão passando e vão ficando constituindo-se tradição, documento e monumento: “E lembro tudo o que era simples / antes do nada inevitável / Mas que do nada ao menos fique / um monumento de palavras”.

Uma sugestão de Francisco Belard. Leia-se uma breve apresentação de Teresa Martins Marques.

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Os amantes da Dona Julieta, de Paula Teixeira de Queiroz

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A sorte estava do lado do Pedro, pois ao director do hospital já tinham chegado uns zunzuns de quem era na verdade o Ercílio, o homem mais corrupto da cidade. Mas não actuava sozinho, era a ponta do iceberg. O escândalo já tinha chegado ao hospital da forma mais vil: cartas anónimas a denunciar um certo médico feito com o director da Protecção Civil. E nestas coisas não há fumo sem fogo, já dizia o velho ditado.

— Paula Teixeira de Queiroz, Os amantes da Dona Julieta, Coimbra Editora, 2015, p. 129

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