Afasia e Comunicação após Lesão Cerebral — definição, classificação e reabilitação, de José Fonseca (coord.)

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As capacidades necessárias para conseguir ler são multifactoriais. É necessário reconhecer e aplicar o que representam as letras isoladamente, a sua união e o seu aspecto gráfico. Alguns aspectos da cognição podem interferir com a capacidade de leitura. Se a pessoa não é capaz de reter na memória o que leu, a compreensão do texto passa a ser reduzida. Os testes de avaliação da leitura e da escrita estão muitas vezes organizados em tarefas de associação palavra/objecto, escolher uma palavra para terminar uma frase, assim como responder a questões relacionadas com a leitura de um texto.

— Dália Nogueira, “Alterações da Comunicação no Envelhecimento e Demência”, in J. Fonseca (coord.), Afasia e Comunicação Após Lesão Cerebral – definiçãoclassificação e reabilitação, Lisboa, Papa-Letras, 1.ª Edição, 2018. p. 239.

Nótula na página 2: “Edição redigida sem o novo Acordo Ortográfico”.

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Gramática para Todos — O Português na Ponta da Língua, de Marco Neves

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A gramática da lingua não tem de estar escrita nalgum lado — a gramática, neste sentido, não é um livro: é o conjunto de regularidades e excepções que existe na cabeça dos falantes e se revela no uso real da língua.

— Marco Neves, Gramática para Todos — O Português na Ponta da Língua, Guerra & Paz, 1.ª Edição, Abril de 2019, p. 23

Nótula na página 4: “A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico” (negritos no original,  cf. igualmente  José Cardoso Pires e o leitor desassossegado, do mesmo Autor).

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Não Cites Pessoa em Vão, de Vasco Silva (selecção, organização e nota editorial)

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A actividade social chamada comércio, por mal vista que esteja hoje pelos teoristas de sociedades impossíveis, é contudo um dos dois característicos distintivos das sociedades chamadas civilizadas. O outro característico distintivo é o que se denomina cultura.

Revista de Comércio e Contabilidade, n.º 3, 25-3-1926 (p. 29)

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ORTOGRAFIA

A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.

Pessoa inédito (p. 68)

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ESPECTADOR

Procurei sempre ser espectador da vida, sem nunca me misturar nela.

Página íntimas e de Auto-Interpretação (p. 38)

 

1.ª edição, Novembro de 2018, Lisboa, E-Primatur

Nótula de Vasco Silva (p. 10): “A ortografia foi uniformizada pela anterior ao Acordo Ortográfico de 1990 e o título Não Cites Pessoa em Vão foi encontrado na parede de uma rua de Lisboa”.

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José Cardoso Pires e o leitor desassossegado, de Marco Neves

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Nos aspectos analisados até agora, a paródia ao romance policial satiriza sobretudo a actuação policial e o ambiente social vivido na época dos eventos narrados, sátira que se baseia em grande medida no facto de o regime criticado já ter caído e as suas características negativas serem conhecidas pelo leitor, supondo-se, portanto, competência ideológica da parte do leitor:  supõe-.se que o leitor avalia negativamente a autoridade legitimadora da actuação policial em Balada da Praia dos Cães. Um leitor que não o faça lerá com maior dificuldade este romance como uma paródia do romance policial, ficando apenas pelo primeiro nível, o do romance policial propriamente dito. Ou seja, o horizonte de expectativas do leitor português de  Balada da Praia dos Cães inclui uma valoração negativa da autoridade vigente em 1960.

Marco Neves, José Cardoso Pires e o leitor desassossegado, Guerra & Paz, 2018. p. 81.

Nótula na página 4: “A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico” (negritos no original).

 

 

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Lojas Históricas em Lisboa, de Círculo das Lojas de Carácter e Tradição de Lisboa e Urban Sketchers Portugal (texto: Miguel de Sepúlveda Velloso e Paulo Ferrero)

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Havia detalhes magníficos, como o biombo a vidro cinzelado art déco, com livros desenhados e uma senhora que bem podia estar num livro com Poirot. Ou aquela estante central, em que as prateleiras se pareciam com folhas abertas. e o vidro e a madeira projectavam luz, muita luz.

Infelizmente, a 29 de Dezembro de 2017, esta livraria tornou-se mais uma das vítimas de um fenómeno que está a apagar a História e a memória da cidade.

“Livraria Aillaud & Lellos”, p. 62.

O actual dono, o Sr. Carlos Carvalho, mantém uma mão segura ao leme da casa. A direcção é clara: o acto de adquirir um par de luvas não é uma mera transacção, mas sim um gesto atento e vagaroso: olhar, escolher, provar e, depois de dois dedos de conversa do melhor aconselhamento, a decisão de comprar.

“Luvaria Ulisses”, p. 70.

Lojas históricas em Lisboa, Círculo das Lojas de Carácter e Tradição de Lisboa e Urban Sketchers Portugal (texto: Miguel de Sepúlveda Velloso e Paulo Ferrero), Zestbooks, Maio de 2018.

Recomendo a leitura deste excelente artigo .

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Porto, última estação, de Mariana Correia Pinto

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É a viagem à raiz do problema. “Tenho de lhes dizer que não há dinheiro para eles, mas há para submarinos, para salvar bancos, pagar os juros da dívida e as parcerias público-privadas.” Chalana chama-lhe PPP – Plano Ideológico de Perseguição aos Pobres. E, por isso, não vacila perante esquemas de sobrevivência a fazer respirar o Lagarteiro. Há uma casa livre no bloco 2, entrada 39, casa 31: se a dona Alcina mudasse a morada para lá, passava a ter direito ao subsídio. Houve um corte de luz feito pela EDP a uma senhora cujo filho anda em cadeira de rodas e depende da electricidade para a carregar: se for feita uma ligação directa no contador o problema fica resolvido.

— Não é correcto do ponto de vista ético? Não. Legal? Não. Mas como se socorre estas pessoas no imediato? Esperar a revolução e uma mudança na lei do RSI não é exequível.

[…]

Há um problema de raiz no entendimento da cidade. Quando a estrada da Circunvalação foi construída, em 1875, rodeou o Porto e definiu-lhe, em quase todo o território, limites administrativos. Mas houve excepções, reservadas a alguns núcleos das freguesias de Paranhos e de Campanhã. “Há aqui um território que é esquecido, e até diria mais do que isso: muitos portuenses consideram que não é Porto”. A análise do geógrafo Rio Fernandes, docente da Universidade do Porto, iliba o ambiente natural da zona. O que fracassou, diz, foram as mecânicas de urbanização a impor “limites psicológicos” à frequesia para lá ou para cá da linha de comboio, para lá ou para cá da Circunvalação, para lá ou para cá da VCI, para lá ou para cá do vale.

— Mariana Correia Pinto, Porto, última estação, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Setembro de 2017, pp. 20-1 e 76-7.

Nõtula: «A autora desta publicação não adoptou o novo Acordo Ortográfico» (p. 4).

 

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Gramática de Grego: Grego Clássico e Helenístico, de Manuel Alexandre Júnior

GREGO

À semelhança do tempo, que apresenta em grego cinco temas distintos, o modo apresenta quatro formas finitas diferentes (os modos propriamente ditos) e duas formas não finitas (o infinitivo e o particípio).

O modo verbal é a forma como o sujeito afirma a realidade da declaração feita pela acção do verbo. Ou, por outras palavras, é o traço morfológico de um verbo que o sujeito usa para retratar a sua afirmação em termos de realidade expressa pela acção ou estado verbal. O grego tem quatro modos e cada um deles indica um grau de realidade. O indicativo é o modo da realidade objectiva. O conjuntivo, optativo e imperativo são modos da realidade não objectiva, respectivamente a probabilidade, a possibilidade e a vontade. Alguns gramáticos acrescentam o infinitivo e o particípio aos modos por alguns dos seus usos serem virtualmente os mesmos dos modos. Embora se possam classificar com os modos, o facto é que também há neles usos que não têm função modal possível. Será talvez mais correcto classificá-los como formas nominais do verbo: o infinitivo como nome verbal e o particípio como adjectivo verbal.

As formas do modo podem, portanto, classificar-se em duas categorias distintas; uma forma do modo indicativo e três formas de modos não indicativos. Importa, entretanto, sublinhar que uma mesma função se pode representar por mais do que um modo. Por exemplo, o conjuntivo e o imperativo são ambos usados para proibições ou ordens negativas; o indicativo e o imperativo são ambos usados para mandamentos ou ordens positivas; o indicativo e o optativo são ambos usados para a expressão do desejo. O desenvolvimento dos modos foi gradual, mas a sua diferenciação nunca foi absolutamente assumida.

Manuel Alexandre Júnior, Gramática de Grego: o Grego Clássico e Helenístico, 2.ª edição revista e actualizada, revisão de Sara Sousa Gomes, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2016, p. 318.

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O Centro do Mundo, de Ana Cristina Leonardo

o centro do mundo

 

Apesar da «nobre indiferença muçulmana pelo autoclismo, o esgoto, a árvore frondosa e a ânsia de ar das ruas novas» de que falava Aquilino, dando razão a Boris, e da falta de pergaminhos que já em 1758 era notada pelo prior Sebastião de Sousa, Olhão mantém um lastro de glória. Industriais, pescadores e vates contrabandistas continuam a partilhar o desrespeito pela lei e o culto pelo Senhor dos Aflitos, numa vila pródiga em dândis e espanholas, estrangeiros e aventureiros, sardinhas e anarquistas, operários e fedor. Tresanda, resume Raul Brandão. Não exagera o simbolista. Ao peixe que apodrece sob o calor africano junta-se a matéria fecal que escorre a céu aberto, húmus pestilento que Captain Zorra nunca conseguiu olvidar, memória primeva que nos conduz, um pouco abruptamente, é certo, a Marilyn Monroe, actriz que nunca veio a Olhão.

— Ana Cristina Leonardo, O Centro do Mundo, Lisboa, Quetzal, Junho de 2018, p. 27.

 

Por decisão da Autora, este livro mantém a grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

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Macbeth, de William Shakespeare (tradução de Daniel Jonas)

Livro-Macbeth

MALCOLM:

Não deixaremos ir-se o bom momento

De vos agradecer o vosso afecto,

E compensá-lo bem: senhores, sois condes,

Os primeiros que a Escócia alguma vez

Ouviu chamar. E este novo tempo

Exige que chamemos sem demora

Os nossos conterrâneos no exílio,

Fugidos às ciladas do tirano,

Chamando à justiça os carrascos

Do algoz e da rainha demoníaca,

A qual, consta, tomou nas suas mãos

A sua vida – isto e o que mais

Impenda sobre nós, se Deus quiser,

Virá quando o momento o disser:

Aceitai-nos, senhores, a gratidão

E um convite à nossa coroação.

(Trombetas. Saem todos)

— William Shakespeare, Macbeth (tradução e prefácio de Daniel Jonas), V. N. Famalicão, Teatro Nacional de S. João & Edições Húmus, Lda, Maio de 2017, p. 134.

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Cair para dentro, de Valério Romão

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A mãe levou uns bons quinze dias a aceitar que ele se tinha ido embora. Quando o fez, naufragou no sofá de pele e chorou um dia inteiro, vindo à superfície apenas para poisar os olhos na acne da parede, filigrana de areia e geografia de bolor onde eu sabia que ela o divisava, em jeito de projecção unipessoal caseira, contentinha na pobreza de interromper a realidade com as coisas que os olhos põem nas coisas que os olhos querem ver. Eu não lhe podia dizer o quanto estava contente por ele ter saído das nossas vidas. Em primeiro lugar, porque não sabia se era definitivo ou se o sujeito, afoito no arrependimento de pacotilha
nunca mais e prometo eram apelidos adoptivos
não nos apareceria novamente em casa com uma naturalidade desarmante, esbodegando-se em frente ao noticiário num abandono de morsa e reclamando a pontualidade do jantar, o dinheiro que só eu meto em casa, esta balbúrdia de coisas espalhadas no quarto mais a fedelha intrometida, que não me soubeste dar um filho, e eu fixava -me nos olhos dele até lhe perturbar em definitivo o equilíbrio entre não se levantar e aplicar-me um correctivo e quando me assentava uma galheta na cara eu saía do transe um grande buldogue inglês aspergindo a sala de baba e visco, poltergeist eunuco em camisa de flanela e rumava ao quarto, metia -me na cama e jurava a Santa Teresinha que um dia o havia de ver morto ou, hipérbole de criança, ainda pior.

Valério Romão, “Cair Para Dentro“, Abysmo, Fevereiro de 2018

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Cair para dentro

Valério Romão

CAIR PARA DENTRO narra a história de duas mulheres, Virgínia e Eugénia, unidas Continue reading

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