Porto, última estação, de Mariana Correia Pinto

Porto-Ultima-Estacao

É a viagem à raiz do problema. “Tenho de lhes dizer que não há dinheiro para eles, mas há para submarinos, para salvar bancos, pagar os juros da dívida e as parcerias público-privadas.” Chalana chama-lhe PPP – Plano Ideológico de Perseguição aos Pobres. E, por isso, não vacila perante esquemas de sobrevivência a fazer respirar o Lagarteiro. Há uma casa livre no bloco 2, entrada 39, casa 31: se a dona Alcina mudasse a morada para lá, passava a ter direito ao subsídio. Houve um corte de luz feito pela EDP a uma senhora cujo filho anda em cadeira de rodas e depende da electricidade para a carregar: se for feita uma ligação directa no contador o problema fica resolvido.

— Não é correcto do ponto de vista ético? Não. Legal? Não. Mas como se socorre estas pessoas no imediato? Esperar a revolução e uma mudança na lei do RSI não é exequível.

[…]

Há um problema de raiz no entendimento da cidade. Quando a estrada da Circunvalação foi construída, em 1875, rodeou o Porto e definiu-lhe, em quase todo o território, limites administrativos. Mas houve excepções, reservadas a alguns núcleos das freguesias de Paranhos e de Campanhã. “Há aqui um território que é esquecido, e até diria mais do que isso: muitos portuenses consideram que não é Porto”. A análise do geógrafo Rio Fernandes, docente da Universidade do Porto, iliba o ambiente natural da zona. O que fracassou, diz, foram as mecânicas de urbanização a impor “limites psicológicos” à frequesia para lá ou para cá da linha de comboio, para lá ou para cá da Circunvalação, para lá ou para cá da VCI, para lá ou para cá do vale.

— Mariana Correia Pinto, Porto, última estação, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Setembro de 2017, pp. 20-1 e 76-7.

Nõtula: «A autora desta publicação não adoptou o novo Acordo Ortográfico» (p. 4).

 

Advertisements
Posted in Geral | Tagged , , , | Leave a comment

Gramática de Grego: Grego Clássico e Helenístico, de Manuel Alexandre Júnior

GREGO

À semelhança do tempo, que apresenta em grego cinco temas distintos, o modo apresenta quatro formas finitas diferentes (os modos propriamente ditos) e duas formas não finitas (o infinitivo e o particípio).

O modo verbal é a forma como o sujeito afirma a realidade da declaração feita pela acção do verbo. Ou, por outras palavras, é o traço morfológico de um verbo que o sujeito usa para retratar a sua afirmação em termos de realidade expressa pela acção ou estado verbal. O grego tem quatro modos e cada um deles indica um grau de realidade. O indicativo é o modo da realidade objectiva. O conjuntivo, optativo e imperativo são modos da realidade não objectiva, respectivamente a probabilidade, a possibilidade e a vontade. Alguns gramáticos acrescentam o infinitivo e o particípio aos modos por alguns dos seus usos serem virtualmente os mesmos dos modos. Embora se possam classificar com os modos, o facto é que também há neles usos que não têm função modal possível. Será talvez mais correcto classificá-los como formas nominais do verbo: o infinitivo como nome verbal e o particípio como adjectivo verbal.

As formas do modo podem, portanto, classificar-se em duas categorias distintas; uma forma do modo indicativo e três formas de modos não indicativos. Importa, entretanto, sublinhar que uma mesma função se pode representar por mais do que um modo. Por exemplo, o conjuntivo e o imperativo são ambos usados para proibições ou ordens negativas; o indicativo e o imperativo são ambos usados para mandamentos ou ordens positivas; o indicativo e o optativo são ambos usados para a expressão do desejo. O desenvolvimento dos modos foi gradual, mas a sua diferenciação nunca foi absolutamente assumida.

Manuel Alexandre Júnior, Gramática de Grego: o Grego Clássico e Helenístico, 2.ª edição revista e actualizada, revisão de Sara Sousa Gomes, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2016, p. 318.

Posted in Gramática, Grego | Tagged , , | Leave a comment

O Centro do Mundo, de Ana Cristina Leonardo

o centro do mundo

 

Apesar da «nobre indiferença muçulmana pelo autoclismo, o esgoto, a árvore frondosa e a ânsia de ar das ruas novas» de que falava Aquilino, dando razão a Boris, e da falta de pergaminhos que já em 1758 era notada pelo prior Sebastião de Sousa, Olhão mantém um lastro de glória. Industriais, pescadores e vates contrabandistas continuam a partilhar o desrespeito pela lei e o culto pelo Senhor dos Aflitos, numa vila pródiga em dândis e espanholas, estrangeiros e aventureiros, sardinhas e anarquistas, operários e fedor. Tresanda, resume Raul Brandão. Não exagera o simbolista. Ao peixe que apodrece sob o calor africano junta-se a matéria fecal que escorre a céu aberto, húmus pestilento que Captain Zorra nunca conseguiu olvidar, memória primeva que nos conduz, um pouco abruptamente, é certo, a Marilyn Monroe, actriz que nunca veio a Olhão.

— Ana Cristina Leonardo, O Centro do Mundo, Lisboa, Quetzal, Junho de 2018, p. 27.

 

Por decisão da Autora, este livro mantém a grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

Posted in Literatura | Tagged , | Leave a comment

Macbeth, de William Shakespeare (tradução de Daniel Jonas)

Livro-Macbeth

MALCOLM:

Não deixaremos ir-se o bom momento

De vos agradecer o vosso afecto,

E compensá-lo bem: senhores, sois condes,

Os primeiros que a Escócia alguma vez

Ouviu chamar. E este novo tempo

Exige que chamemos sem demora

Os nossos conterrâneos no exílio,

Fugidos às ciladas do tirano,

Chamando à justiça os carrascos

Do algoz e da rainha demoníaca,

A qual, consta, tomou nas suas mãos

A sua vida – isto e o que mais

Impenda sobre nós, se Deus quiser,

Virá quando o momento o disser:

Aceitai-nos, senhores, a gratidão

E um convite à nossa coroação.

(Trombetas. Saem todos)

— William Shakespeare, Macbeth (tradução e prefácio de Daniel Jonas), V. N. Famalicão, Teatro Nacional de S. João & Edições Húmus, Lda, Maio de 2017, p. 134.

Posted in Literatura, Teatro | Tagged , , , | Leave a comment

Cair para dentro, de Valério Romão

VRomao

A mãe levou uns bons quinze dias a aceitar que ele se tinha ido embora. Quando o fez, naufragou no sofá de pele e chorou um dia inteiro, vindo à superfície apenas para poisar os olhos na acne da parede, filigrana de areia e geografia de bolor onde eu sabia que ela o divisava, em jeito de projecção unipessoal caseira, contentinha na pobreza de interromper a realidade com as coisas que os olhos põem nas coisas que os olhos querem ver. Eu não lhe podia dizer o quanto estava contente por ele ter saído das nossas vidas. Em primeiro lugar, porque não sabia se era definitivo ou se o sujeito, afoito no arrependimento de pacotilha
nunca mais e prometo eram apelidos adoptivos
não nos apareceria novamente em casa com uma naturalidade desarmante, esbodegando-se em frente ao noticiário num abandono de morsa e reclamando a pontualidade do jantar, o dinheiro que só eu meto em casa, esta balbúrdia de coisas espalhadas no quarto mais a fedelha intrometida, que não me soubeste dar um filho, e eu fixava -me nos olhos dele até lhe perturbar em definitivo o equilíbrio entre não se levantar e aplicar-me um correctivo e quando me assentava uma galheta na cara eu saía do transe um grande buldogue inglês aspergindo a sala de baba e visco, poltergeist eunuco em camisa de flanela e rumava ao quarto, metia -me na cama e jurava a Santa Teresinha que um dia o havia de ver morto ou, hipérbole de criança, ainda pior.

Valério Romão, “Cair Para Dentro“, Abysmo, Fevereiro de 2018

***

Cair para dentro

Valério Romão

CAIR PARA DENTRO narra a história de duas mulheres, Virgínia e Eugénia, unidas Continue reading

Posted in Geral | Leave a comment

Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos, de José Mário Silva (org.)

JMS FMV

 

O título desta antologia — Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos — contém um adjectivo problemático. No conjunto dos muitos milhares de poemas escritos por autores portugueses num século inteiro, como escolher «os melhores»? E o que significa «melhor» em poesia? Qualquer escolha desta natureza, mesmo no caso da obra de poetas que já sobreviveram ao crivo da posteridade e merecem um lugar no cânone, será sempre imperfeita, discutível, precária. Uma antologia diz sempre mais sobre quem selecciona do que sobre a matéria seleccionada.

— José Mário Silva, excerto de “Breves Notas em Jeito de Introdução” (p. 13)

Continue reading

Posted in Literatura | Tagged , , , , , , | Leave a comment

Avieiros, de Alves Redol

avieiros

O escritor não é ser passivo ante o mundo que o cerca. Apaixona‑se sempre. A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica. Recusa padrões, fórmulas, os caminhos fáceis do naturalismo, mesmo que surjam, como agora, sob disfarces de vanguarda. Escolhe, representa, desencadeia a percepção e a imaginação do leitor: entrega‑lhe um instrumento, um estímulo, para penetrar na realidade e interpretá‑la também por sua vez. Para que cada leitor, outro homem biológico e social, sensitivo e diferenciado, recrie a seu modo, por vias algumas vezes insuspeitadas, a nova realidade que o escritor teceu. Todos eles, individual e colectivamente, participam na criação constante de um corpo vivo, projectado em milhentas imagens que se focam e desfocam ao sabor de quem lê e reimagina, segundo o tono que os habita. Também sob a coacção do grupo social, familiar ou político de que participam; segundo também o momento, o exacto momento psicológico em que o escritor cria e o público lê ou medita. Mas voltemos à minha experiência espontânea, logo depois premeditada. Muitos chamavam recolha, talvez impropriamente, a esta busca de contacto humano; outros apoucaram o processo, impropriamente também. Na verdade, não se recolhem os materiais da vida; vivem‑se. Ou inventam‑se. Mas escolhem‑se as vivências ou as invenções quando um escritor sabe para que vive. E como lhe importa viver.

[…]

A areia cavava‑se num salto brusco; quando vinham cabeças‑d’água, o rio estendia‑se até lá, numa curva escondida aos olhos de quem navegasse de Valada para baixo. Mais viçosas do que as outras, a frescura das águas dava calmante à sede; as moitas que a tapavam do poente cresciam sem licença de Deus.

O calor esbraseava. O trabalhar de um tractor era o único som que andava no espaço. Os gados estavam recolhidos e não tangiam badalos, enquanto os pássaros passavam, numa vertigem, em busca de sombra.

[…]

«Na companha do Zé Malho pouco dinheiro e muito trabalho» Continue reading

Posted in Literatura | Tagged , , | Leave a comment

Vida e Obra de Fernando Pessoa, de João Gaspar Simões

pessoa

E cumpria, mas cumpria sempre com atraso. Colaborava agora, regularmente, na Presença. E os directores da revista projectavam publicar-lhe a obra. Mas era preciso extraí-la dos papéis avulsos, da sua «biblioteca virtual» de poemas inéditos, como dizia. E nunca chegava a dispor de uns momentos para tal. Os seus projectos de obras completas estavam elaborados. Em carta de 28 de Julho de 1932, expunha-me um plano minucioso. (1) Portugal, (2) Livro do Desassossego, (3) Poemas Completos de Alberto Caeiro, (4) Cancioneiro. O pior era arrumar, escolher, copiar, pôr em ordem.

— João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa, D.Quixote/Leya, 6.ª Edição, Setembro de 2017, p. 780.

«Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990»

Pessoa2

A propósito desta nótula, recordemos outras nótulas aqui deixadas, para outras obras.

Acabo de saber que Pedro Correia, do Delito de Opinião, já fizera merecida referência à excelência ortográfica desta importante obra. Óptimo!

Posted in História, Literatura | Tagged , | Leave a comment

Poemas Escolhidos, de W. B. Yeats (tradução de Frederico Pedreira)

yeats
***
UM DIÁLOGO ENTRE O EU E A ALMA
[…]
Estou satisfeito por perseguir até à origem
Tudo o que decorre da acção e do pensamento;
Examinar o todo; perdoar-me por esse todo!
Quando alguém como eu espanta o remorso,
Tão imensa é a pureza que inunda o peito
Que nada mais resta fazer senão rir e cantar,
E tudo quanto existe nos abençoa,
E tudo quanto vemos é abençoado.
(p. 255)
***
A DIALOGUE OF SELF AND SOUL
[….]
I am content to follow to its source
Every event in action or in thought;
Measure the lot; forgive myself the lot!
When such as I cast out remorse
So great a sweetness flows into the breast
We must laugh and we must sing,
We are blest by everything,
Everything we look upon is blest.
***
UMA NOMEAÇÃO
Achando-me em discórdia com o governo,
Colhi uma raiz desfeita para lançá-la na direcção
Que o orgulhoso, obstinado esquilo seguia,
Divertindo-me o facto de ele pular;
Soltando um som cavo e casquinado,
Espécie de riso, pulou outra vez, e assim
Alcançou a outra árvore à distância de um salto.
Não foi uma vontade submissa
Nem um pensamento medroso,
Sequer um pesado franzir do sobrolho
O que gerou a sua feroz mordida, a precisão dos membros,
O que o fez lançar-se ao ramo com um esgar sorridente;
Nenhum governo o terá nomeado.
(p. 140)
***
AN APPOINTMENT
Being out of heart with government
I took a broken root to fling
Where the proud, wayward squirrel went,
Taking delight that he could spring;
And he, with that low whinnying sound
That is like laughter, sprang again
And so to the other tree at a bound.
Nor the tame will, nor timid brain,
Nor heavy knitting of the brow
Bred that fierce tooth and cleanly limb
And threw him up to laugh on the bough;
No govermnent appointed him.
***
PÁSCOA, 1916
Cruzei-me com eles, terminava então o dia,
Notava-se-lhes o fulgor dos semblantes,
Vinham dos respectivos balcões ou secretárias
Por entre pardacentas casas do século dezoito.
Passava por eles com um aceno de cabeça ou
Uma ou outra amável palavra de circunstância,
E antes de o fazer não deixava de pensar
Num qualquer gracejo ou provocação
Que serviria para entreter um dos companheiros
Quando estivéssemos junto à lareira do clube,
Certo de que tanto eu como eles vivíamos
Num país onde todas as máscaras estão gastas:
Tudo então mudou, mudou por completo:
Uma terrível beleza nasceu.
[…]
(p. 197)
 ***
EASTER, 1916
I have met them at close of day
Coming with vivid faces
From counter or desk among grey
Eighteenth-century houses.
I have passed with a nod of the head
Or polite meaningless words,
Or have lingered awhile and said
Polite meaningless words,
And thought before I had done
Of a mocking tale or a gibe
To please a companion
Around the fire at the club,
Being certain that they and I
But lived where motley is worn:
All changed, changed utterly:
A terrible beauty is born.

Continue reading

Posted in Literatura, Tradução | Tagged , , , | Leave a comment

Vocabulário para o Projecto de Estruturas, de Luís Leite Pinto

VOC PROJ ESTRUT

Com as terminologias em português, inglês e francês, esta segunda edição conta com mais de 1800 termos técnicos, entre eles, 400 vocábulos adicionais em relação à edição anterior, essencialmente no domínio da construção. Por opção do autor, este livro não segue o novo acordo ortográfico.

A Região Sul da Ordem dos Engenheiros decidiu apoiar esta reedição, numa altura em que muitos engenheiros portugueses demonstram o seu valor e as suas qualidades no estrangeiro.

— Ordem dos Engenheiros

Posted in Ciência, sem acordo ortográfico | Tagged , | Leave a comment