Avieiros, de Alves Redol

avieiros

O escritor não é ser passivo ante o mundo que o cerca. Apaixona‑se sempre. A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica. Recusa padrões, fórmulas, os caminhos fáceis do naturalismo, mesmo que surjam, como agora, sob disfarces de vanguarda. Escolhe, representa, desencadeia a percepção e a imaginação do leitor: entrega‑lhe um instrumento, um estímulo, para penetrar na realidade e interpretá‑la também por sua vez. Para que cada leitor, outro homem biológico e social, sensitivo e diferenciado, recrie a seu modo, por vias algumas vezes insuspeitadas, a nova realidade que o escritor teceu. Todos eles, individual e colectivamente, participam na criação constante de um corpo vivo, projectado em milhentas imagens que se focam e desfocam ao sabor de quem lê e reimagina, segundo o tono que os habita. Também sob a coacção do grupo social, familiar ou político de que participam; segundo também o momento, o exacto momento psicológico em que o escritor cria e o público lê ou medita. Mas voltemos à minha experiência espontânea, logo depois premeditada. Muitos chamavam recolha, talvez impropriamente, a esta busca de contacto humano; outros apoucaram o processo, impropriamente também. Na verdade, não se recolhem os materiais da vida; vivem‑se. Ou inventam‑se. Mas escolhem‑se as vivências ou as invenções quando um escritor sabe para que vive. E como lhe importa viver.

[…]

A areia cavava‑se num salto brusco; quando vinham cabeças‑d’água, o rio estendia‑se até lá, numa curva escondida aos olhos de quem navegasse de Valada para baixo. Mais viçosas do que as outras, a frescura das águas dava calmante à sede; as moitas que a tapavam do poente cresciam sem licença de Deus.

O calor esbraseava. O trabalhar de um tractor era o único som que andava no espaço. Os gados estavam recolhidos e não tangiam badalos, enquanto os pássaros passavam, numa vertigem, em busca de sombra.

[…]

«Na companha do Zé Malho pouco dinheiro e muito trabalho» Continue reading

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Vida e Obra de Fernando Pessoa, de João Gaspar Simões

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E cumpria, mas cumpria sempre com atraso. Colaborava agora, regularmente, na Presença. E os directores da revista projectavam publicar-lhe a obra. Mas era preciso extraí-la dos papéis avulsos, da sua «biblioteca virtual» de poemas inéditos, como dizia. E nunca chegava a dispor de uns momentos para tal. Os seus projectos de obras completas estavam elaborados. Em carta de 28 de Julho de 1932, expunha-me um plano minucioso. (1) Portugal, (2) Livro do Desassossego, (3) Poemas Completos de Alberto Caeiro, (4) Cancioneiro. O pior era arrumar, escolher, copiar, pôr em ordem.

— João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa, D.Quixote/Leya, 6.ª Edição, Setembro de 2017, p. 780.

«Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990»

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A propósito desta nótula, recordemos outras nótulas aqui deixadas, para outras obras.

Acabo de saber que Pedro Correia, do Delito de Opinião, já fizera merecida referência à excelência ortográfica desta importante obra. Óptimo!

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Poemas Escolhidos, de W. B. Yeats (tradução de Frederico Pedreira)

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***
UM DIÁLOGO ENTRE O EU E A ALMA
[…]
Estou satisfeito por perseguir até à origem
Tudo o que decorre da acção e do pensamento;
Examinar o todo; perdoar-me por esse todo!
Quando alguém como eu espanta o remorso,
Tão imensa é a pureza que inunda o peito
Que nada mais resta fazer senão rir e cantar,
E tudo quanto existe nos abençoa,
E tudo quanto vemos é abençoado.
(p. 255)
***
A DIALOGUE OF SELF AND SOUL
[….]
I am content to follow to its source
Every event in action or in thought;
Measure the lot; forgive myself the lot!
When such as I cast out remorse
So great a sweetness flows into the breast
We must laugh and we must sing,
We are blest by everything,
Everything we look upon is blest.
***
UMA NOMEAÇÃO
Achando-me em discórdia com o governo,
Colhi uma raiz desfeita para lançá-la na direcção
Que o orgulhoso, obstinado esquilo seguia,
Divertindo-me o facto de ele pular;
Soltando um som cavo e casquinado,
Espécie de riso, pulou outra vez, e assim
Alcançou a outra árvore à distância de um salto.
Não foi uma vontade submissa
Nem um pensamento medroso,
Sequer um pesado franzir do sobrolho
O que gerou a sua feroz mordida, a precisão dos membros,
O que o fez lançar-se ao ramo com um esgar sorridente;
Nenhum governo o terá nomeado.
(p. 140)
***
AN APPOINTMENT
Being out of heart with government
I took a broken root to fling
Where the proud, wayward squirrel went,
Taking delight that he could spring;
And he, with that low whinnying sound
That is like laughter, sprang again
And so to the other tree at a bound.
Nor the tame will, nor timid brain,
Nor heavy knitting of the brow
Bred that fierce tooth and cleanly limb
And threw him up to laugh on the bough;
No govermnent appointed him.
***
PÁSCOA, 1916
Cruzei-me com eles, terminava então o dia,
Notava-se-lhes o fulgor dos semblantes,
Vinham dos respectivos balcões ou secretárias
Por entre pardacentas casas do século dezoito.
Passava por eles com um aceno de cabeça ou
Uma ou outra amável palavra de circunstância,
E antes de o fazer não deixava de pensar
Num qualquer gracejo ou provocação
Que serviria para entreter um dos companheiros
Quando estivéssemos junto à lareira do clube,
Certo de que tanto eu como eles vivíamos
Num país onde todas as máscaras estão gastas:
Tudo então mudou, mudou por completo:
Uma terrível beleza nasceu.
[…]
(p. 197)
 ***
EASTER, 1916
I have met them at close of day
Coming with vivid faces
From counter or desk among grey
Eighteenth-century houses.
I have passed with a nod of the head
Or polite meaningless words,
Or have lingered awhile and said
Polite meaningless words,
And thought before I had done
Of a mocking tale or a gibe
To please a companion
Around the fire at the club,
Being certain that they and I
But lived where motley is worn:
All changed, changed utterly:
A terrible beauty is born.

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Vocabulário para o Projecto de Estruturas, de Luís Leite Pinto

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Com as terminologias em português, inglês e francês, esta segunda edição conta com mais de 1800 termos técnicos, entre eles, 400 vocábulos adicionais em relação à edição anterior, essencialmente no domínio da construção. Por opção do autor, este livro não segue o novo acordo ortográfico.

A Região Sul da Ordem dos Engenheiros decidiu apoiar esta reedição, numa altura em que muitos engenheiros portugueses demonstram o seu valor e as suas qualidades no estrangeiro.

— Ordem dos Engenheiros

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Eléctrico 28, de Davide Cali e Magali Le Huche

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Amadeu est conducteur de tram à Lisbonne, mais pas un conducteur de tram comme les autres. Dans son Électrico 28, c’est le bonheur total : les gens tombent tous amoureux, grâce à sa panoplie de manoeuvres habiles et amusantes. Tous ? Sauf Amadeu, qui a un coeur grand comme ça.

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Aulas de Literatura – Berkeley, 1980, de Julio Cortázar (tradução de Miguel Filipe Mochila)

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Recentemente, durante um voo da cidade onde moro (por acaso, aquela onde nasceu Cortázar) para os Estados Unidos (não, não foi para Berkeley), li com bastante agrado as Clases de literatura – Berkeley, 1980. Acabo de descobrir que existe uma tradução para português e ainda por cima ortograficamente exemplar. Efectivamente.

Ficamos agora apenas pela escrita, e é nela que me interessa investir, porque quanto ao tipo de preconceitos da direita não há grande coisa a fazer, mas no que se refere aos da esquerda sim, pois as pessoas de esquerda estão perfeitamente capacitadas para reflectir e compreender até que ponto, muitas vezes, quando criticam ou se escandalizam perante o que consideram ser pornográfico e não o é, estão a imaginar no domínio mental, uma atitude absolutamente reaccionária.

— Julio Cortázar, Aulas de Literatura – Berkeley, 1980, tradução de Miguel Filipe Mochila, Lisboa, Cavalo de Ferro, Setembro de 2016, p. 260..

 

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A Escada de Istambul, de Tiago Salazar

 

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Nótula na ficha técnica:

Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990.

A propósito desta nótula, recordemos outras nótulas aqui deixadas, para obras de Nunes BarataTorga e Pulido Valente.

– Contentas-te com a imagem de um banqueiro mundano, um coleccionador, um pedagogo universalista? Pergunto-te o mesmo, Nissim – disse Rebecca.

Este sorriu um sorriso triste, só a comissura dos lábios se franziu.

E tu, com a de mulher e mãe quando, no fundo, és mais activista do que todos nós?

— Tiago Salazar, A Escada de Istambul, Lisboa, Oficina do Livro, Outubro de 2016.

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Poemas Escolhidos, de T.S. Eliot

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Estou a ficar velho… Estou a ficar velho…
Hei-de andar com a dobra da calça revirada.

E se eu puxar atrás o risco do cabelo? Arrisco-me a trincar
um pêssego?
Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia.
Já ouvi as sereias cantando, umas às outras.

Creio que para mim não vão cantar.
Tenho-as visto na direcção do mar a cavalgar as ondas
Penteando crinas brancas de ondas encrespadas
Quando o vento revolve as águas escuras e brancas.

Ficámos nas mansões do mar nós dois em abandono
Entre as ondinas com grinaldas de algas castanhas purpurinas
Até que vozes humanas nos despertam e morremos naufragados.

Prufrock e Outras Observações (A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock), tradução de João Almeida Flor), p. 21.

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Guia de Enoturismo em Portugal, de Maria João de Almeida

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Na página 2 deste Guia, podemos encontrar a seguinte “nota da autora”:

Nota da autora: este guia foi orgulhosamente escrito em defesa da língua portuguesa, respeitando o Acordo Ortográfico de 1945.

Efectivamente, eis dois excelentes exemplos, da página 51

A quinta já recebia hóspedes na casa antiga de Dona Antónia Ferreira, mas, em 2012, o projecto enriqueceu-se com a construção de um novo edificio assinado pelo arquitecto Francisco Vieira de Campos, que seguiu a mesma linguagem arquitectónica da adega, moderna, funcional e de linhas sóbrias.

e da página 205

Esta antiga quinta romântica pertenceu ao rei D. Luís I, que a ofereceu a uma famosa actriz por quem se apaixonou, a bela Rosa Damasceno, mandando ali construir um teatro especialmente para ela. […]. Actualmente, a quinta dedica-se a três actividades: produzir vinho, receber hóspedes e organizar eventos.

— Maria João de Almeida, Guia de Enoturismo em Portugal, Segunda Edição, Lisboa, Zest – Books for Life, Setembro de 2016.

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A Utilidade do Inútil, de Nuccio Ordine

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(…) a lógica do lucro mina as bases das instituições (escolas, universidades, centros de pesquisas, laboratórios, museus, bibliotecas, arquivos) e das disciplinas (humanísticas e científicas) cujo valor deveria identificar-se com o saber em si mesmo, independentemente da capacidade de produzir ganhos imediatos ou benefícios práticos. É verdade que muitas vezes os museus e os sítios arqueológicos podem ser fontes de receitas extraordinárias. Mas a sua existência, ao contrário daquilo que alguns gostariam de nos fazer crer, não pode depender dos ganhos materiais. A vida de um museu ou de uma escavação arqueológica, tal como a de um arquivo ou de uma biblioteca, é um tesouro que a colectividade deve a todo o custo preservar ciosamente.

Este livro, por ser também uma antologia, tem a colaboração de autores como Aristóteles, Platão, Kant, Ovídio, Montaigne ou Théophile Gautier, entre outros. Em apêndice, inclui um magnífico ensaio de Abraham Flexner. Leia-se a recensão de Paulo Rodrigues Ferreira.

A tradução é de Margarida Periquito. Uma edição da Faktoria K de Livros.

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